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sábado, novembro 23, 2013

Sangue prematuro

Pequeno não conheceu o pai. Em seus 13 anos de existência tudo que possuía, além da casinha alugada no pé do morro, era Maria, sua mãe, e Alaor, seu irmão mais velho. A família evitava comentar com o caçula que seu pai era um monstro, que batia em sua mãe e não poucas vezes espancou seu irmão com um pedaço de bambu. A única informação que chegou até o garoto foi sobre a valentia de seu tio Nonô, que ameaçou e obrigou seu pai a sumir da vida de sua mãe. Nonô já não aguentava ver tanta covardia dentro da casa de sua irmã e temia um possível aborto, já que Pequeno era um feto de algumas semanas.

O ventre de Maria aguentou todas as adversidades e seu filho nasceu forte e com muita saúde. Cresceu vendo sua mãe trabalhar duro como faxineira na casa de vizinhos. Seu irmão trabalhava como empacotador em um supermercado e sempre que podia ajudava “seo” Manoel na fábrica de bloco que ficava ao lado de sua casa. Ele dizia que alguns trocados a mais sempre eram bem-vindos para fortalecer no orçamento da casa.

O bairro em que os três moravam era tranquilo, porém, como em todos os lugares, existiam aqueles que procuravam se esquecer dos problemas através de caminhos perigosos, que geravam confusões e atritos com a polícia e grupos rivais. E foi em uma dessas vias que o menino Pequeno se deparou com a extrema covardia, bem mais violenta que as sofridas por sua família quando seu pai ainda residia em seu lar.

A necessidade de se autoafirmar levou o garoto a aceitar alguns trabalhos diferentes. Ele teria que ir até uma cidade vizinha e buscar dois quilos de substâncias ilícitas por dia. Além das passagens do ônibus, ele ganhava 100 dinheiros a cada serviço realizado. O que sua mãe recebia por mês, ele recebia por semana. Danones e Sucrilhos começaram a se fazer presentes com mais frequência na cozinha de sua casa, contudo, o dinheiro ganho ilegalmente também era usado para suprir sua dependência química que aumentava gradativamente.

Sempre mentia para sua mãe. Explicava que trabalhava como ajudante em uma oficina do outro lado da cidade. Com seu irmão o papo era reto e o bicho pegava todas as vezes que eles se esbarravam no lar. Alaor sabia do envolvimento de seu irmão menor e conversavam sobre o assunto rotineiramente. O problema era que Pequeno gostava da vida fácil e se sentia protegido por seus “pais” da rua. Vez ou outra argumentava que eles eram o pai que ele nunca teve e que sempre estavam presentes dando dinheiro, atenção e conselhos para crescer na vida.

Em uma terça-feira chuvosa, o menino de Maria saiu de sua casa para cumprir mais uma missão dada por seus patrões. Antes de ir ao ponto de ônibus passou pela casa de Dalila, a bela menina que ganhou seu coração. Levou um chocolate de presente e disse que logo voltaria, pois há três dias não se viam e a saudade já o maltratava.

A viagem de uma hora foi muito pensativa. Pequeno refletia sobre as aquisições do último mês: celular de última geração e roupas caras. Não via a hora de completar 18 anos e comprar uma moto potente para descer para o litoral todo final de semana. Também recordou que a qualquer momento poderia ser preso e passar meses na casa fundada pelo governador do Estado.

Após chegar ao local, pegou a encomenda e no caminho até a rodoviária foi abordado por dois policiais, que encontraram os quilos em sua mochila. As autoridades o levaram até um terreno e o espancaram. Após a sessão que faria inveja a qualquer cena de tortura do cinema, liberaram o garoto sem as substâncias ilícitas.

“Me agrediram e levaram a parada. Não sei o motivo de não me prenderem, mas podem ficar de boa que eu vou pagar o prejuízo”, - disse Pequeno para os caras da boca, logo após voltar da missão mal sucedida.

Apesar de retornar sujo e machucado, essa história não convenceu seus patrões, que perderam uma quantia exorbitante de dinheiro e deram um prazo para que Pequeno ressarcisse o valor apreendido pelos homens da lei. O filho de Maria não se importou muito, já que em duas semanas de trabalho conseguiria pagar seus superiores e quitar toda a dívida.

Desconfiados se o garoto tinha ou não caguetado todo o esquema, resolveram reavaliar toda a situação. Primeiro mudaram a rota das idas e vindas das mercadorias e dispensaram Pequeno da missão. Agora ele teria que cobrar dívidas de usuários e em uma semana teria que levantar o dinheiro perdido para os policiais.

Com medo de não conseguir reverter a situação, o menino fugiu. Desesperada, Maria procurou seu filho nos hospitais, delegacias e até pediu que a rádio da cidade divulgasse seu desaparecimento. Seu irmão sabia do caso, mas não tinha amizade suficiente com os caras da biqueira para conseguir o perdão para seu irmão.

Dias se passaram e Pequeno retornou ao seu lar. Chegou no horário em que sua mãe não estava e conversou com seu irmão sobre a situação.

“Vou lá desenrolar com os caras, talvez eles me deem um prazo maior. Não aguento mais dormir na rua, quero voltar pra casa e mudar de vida. Vê lá no mercado se tem alguma vaga pra mim?” – desabafou com o coração cheio de angústia.

Ao encontrar seus patrões, explicou a situação e pediu um novo prazo. Eles sorriram e disseram que ele teria mais tempo para conseguir a grana. Após se cumprimentarem, convidaram Pequeno para fumar um beck para relaxar da tensão que ele se encontrava. O adolescente aceitou e caminharam até a beira de um lago que ficava perto do bairro.

Acenderam o baseado e em meio a fumaça, um dos patrões retirou uma faca da mochila e cravou no peito de Pequeno. Foram mais de 20 golpes no corpo frágil do garoto. O filho de Maria não teve tempo nem de pedir clemência. Ainda de olhos abertos e com a boca cheia de sangue, Pequeno viu suas pernas serem cobertas por gasolina e um fósforo aceso cair lentamente em seu corpo ensanguentado. Um de seus “pais” da rua comentou que o serviço estava completo e que era hora de voltar ao trabalho.

Algumas horas depois do assassinato, Maria e Alaor receberam a maldita notícia que tanto temiam. O menino que um dia venceu o aborto, recém havia perdido sua vida. A covardia que tanto insistiu em permanecer na história daquela família voltou a reinar, e agora pretende jazer eternamente.

sexta-feira, novembro 15, 2013

Direito de Viver

Domingo é sinônimo de lazer ou descanso para muitas famílias, mas para outras é dia de sair de casa para matar a saudade do parente que está se recuperando na Comunidade Direito de Viver, em Santa Isabel - SP. A saudade do abraço e a vontade de rever o ente querido é recíproca, tanto o visitante como o visitado anseiam pelo dia de visita que acontece de 15 em 15 dias.





Na última visita que aconteceu dia 10 de novembro, alguns internos não puderam se alegrar com a presença de seus familiares, porque por algum motivo eles não puderam comparecer. Contudo, continuam firmes e cheios de esperança de uma nova vida, longe das substâncias lícitas e ilícitas que os levaram até ali.


Enquanto parentes e amigos colocavam o papo em dia, quatro "mestres da cozinha" permaneciam no propósito de preparar o almoço. Arroz, feijão, carne, batata e salada foram servidos pontualmente ao meio-dia.


Durante o tempo de visita, um jovem viciado em crack e um senhor viciado em álcool chegaram acompanhados de seus familiares. Naquele momento uma nova fase se iniciava em suas vidas.



Aquele domingo também foi especial para mim. Tive a oportunidade de conhecer várias pessoas e aprender um pouco com a história de cada uma delas. Agradeço ao Luciano, que me convidou para ir até lá, e ao Fom, meu irmão, que me acompanhou e me ajudou a fotografar.

A Comunidade Direito de Viver é um local de esperança, onde jovens e adultos buscam virar o jogo e reiniciar suas vidas em um caminho de perdão e reconciliação.


sexta-feira, outubro 04, 2013

Liberdade

Sentado no velho banco de madeira, apreciando o horizonte cinza, pensamentos destravam e enchem os pulmões de sua memória de gratidão. Entre um sorriso tímido e um lento espreguiçar, palavras antes adormecidas começam a despertar e exigir um lugar ao sol.

“A mesa virou, a chuva inundou, a partida está em outro ritmo” – dizia a si mesmo.

As inúmeras situações inexplicáveis que impregnaram violentamente sua alma e as muitas desilusões já não o acompanhavam durante o dia e não o perturbavam quando a noite nascia. Foram esquecidas, saíram de cena e cederam espaços para algo mais elegante.

“Chega de reclamar!”- pensava alto.

Já não se escuta o som murmurante, costurado com linhas abatidas e rancorosas, que ecoava nos becos e vielas. A desesperança e a ingratidão foram dissipadas e raramente a neurose bate na porta da consciência, porém não há quarto para hóspedes indesejados e enlameados de engano.

Que privilégio é poder apreciar o canto da cigarra. Quem imaginaria esse cheque-mate fora de época? Luz, palavras e coração foram mesclados ao perdão, abraços e reconciliação. O novo roteiro trouxe uma perspectiva distinta. Agora o desejo é de enxergar mais sal em suas pegadas.

“Novos problemas, sejam bem-vindos!” – disse em voz alta, antes de se levantar da cadeira.

O caminho de volta não pede muita falação, pois falação é pra quem quer ser eleito – já dizia um poeta. Certamente chegou o momento de pichar paredes eternas e inalar gás lacrimogêneo a favor do amanhã. Cantar mesmo com o time em desvantagem no placar e não perder a ternura jamais.

“Não quero dormir com travesseiro caro, quero estar acordado, quero ser acordado...” – sonhava enquanto caminhava em direção oposta.

quarta-feira, setembro 18, 2013

O menino e o fim do arco-íris

Enquanto os dias não proporcionavam muitas novidades para aquele menino, o caminhar em meio às terras secas e asfaltos esburacados era rotineiro, e escreviam em sua vida páginas e páginas de histórias variadas, muitas vezes sem sentido.

Ele sabia que a vida não estava tão ruim assim, como a do garoto da lenda do pote de ouro no fim do arco-íris, porém, quando olhava para o céu e avistava um raro arco de sete cores, se empolgava e desejava procurar o tão famoso prêmio oferecido para quem achasse o encontro entre o fenômeno e o chão.

Só que ele não era tão biruta assim, a ponto de sair atrás de algo que lhe diziam ser somente uma lenda. Imagina que loucura, andar tantos quilômetros e nunca chegar a lugar nenhum. É uma utopia. Alguns sábios dizem que a utopia serve para tirar a pessoa do comodismo e do conforto, levando-a a viver uma vida com significado.

Em meio a estes pensamentos, aquele menino prometeu a si mesmo que ao avistar o próximo arco-íris, ele sairia em disparada e só retornaria após encontrar o pote de ouro. Apesar de parecer uma expressão gananciosa, ele não amava a quantia que poderia ganhar, somente desejava caminhar por novos lugares e mergulhar em uma nova história.

O grande dia não tardou a chegar. Após nuvens carregadas chorarem durante horas, o céu se abriu e a famosa aliança entre Deus e o homem sorriu timidamente, convidando-o para uma nova jornada. Ele não hesitou em esperar e, sem pensar duas vezes, tomou um novo rumo, sem atalhos, placas ou bússolas.

Embora já houvesse saído do seu vilarejo algumas vezes, ficou maravilhado ao ver pessoas com estilos diferentes de roupas, com semblantes alegres e tristes, com expressões esperançosas e olhares fúnebres de quem não acredita mais no perdão. Também enxergou a modernidade arquitetônica dos prédios e os avanços tecnológicos que sempre estavam na mão de alguém.

Achou interessante tudo aquilo, mas seu objetivo era outro. Talvez, algum gnomo, se é que existe, tenha realmente escondido aquele tesouro e jamais alguém o encontraria. Caso contrário, o menino pensava: eu localizarei o que busco e voltarei para levar esta boa nova à minha família.

Já estava exausto e não mais de cinco vezes parou para beber água. Hidratou-se em bicas, lagos e torneiras até chegar, após horas de caminhada, a outro vilarejo. O sotaque daquelas pessoas soava como quem fala cantando e suas músicas eram de ritmos que ele nunca havia escutado. Ficou fascinado com a cultura e a recepção recebida.

Ali, almoçou, descansou, fez amigos e perguntou se alguém conhecia o local exato do fim do arco-íris. Seus novos camaradas riram e lhe apontaram a única trilha que poderia levar o sonhador até o seu sonho. Ele sorriu, agradeceu e disse que logo mais voltaria para contar-lhes as possíveis novidades.

Diferente do que ele pensava, a trilha era tranquila. Não havia perigo de algum malfeitor lhe prejudicar. Contudo, a atenção estava redobrada e a ansiedade gritava em seu interior. A vontade de chegar era tão grande que cada minuto parecia uma eternidade.

Durante o caminho, relembrou situações marcantes de sua vida. Pensou tanta coisa que não conteve as lágrimas. Os arquivos de sua mente lhe trouxeram histórias fantásticas que havia vivido e agora uma nova vida emergia em meio a uma nova caminhada, com itinerário ainda secreto.

De repente, aquelas cores se fizeram notar mais próximas. O menino olhou como quem não acreditava no que acontecia. Finalmente ele havia chegado ao seu destino. Ajoelhou-se, colocou suas mãos na cabeça e sorriu como há anos não sorria. A satisfação que o envolvia arrancava de sua boca palavras de gratidão que explodiam de seu coração.

Levantou-se e caminhou seus últimos passos até o seu presente. Seus olhos brilhavam e agradecia a Deus por tão importante momento. Agora poderia voltar para casa e contar aos seus pais, irmãos e amigos, que não há pote de ouro no final do arco-íris, e sim, algo muito mais valioso.

sábado, agosto 17, 2013

Amor e panelas

Além de cuidar diariamente dos netos que se divertiam correndo pela casa, dona Ana tinha em sua rotina outras obrigações como: limpar os cômodos, lavar roupas e preparar as refeições. Eram práticas que a satisfaziam. Apesar de cansativo, ela adorava acordar todas as manhãs para mais um dia cheio de afazeres.

Essa linda senhora de 77 anos reuniu ao longo de sua vida muita história pra contar. Mãe de 11 filhos, sendo dois falecidos, colecionou sorrisos e lágrimas durante sua caminhada. A bela trajetória de vida não foi fácil e por causa de tantos momentos difíceis aprendeu a ser uma pessoa compassiva e leal. Uma de suas principais características era amar as pessoas fazendo o bem a elas.

Apesar de ser uma mulher de idade, era forte e lúcida. Não se deixava enganar. Nem mesmo seus netos conseguiam levá-la para “grupo”. Sua bondade era gigantesca, contudo não era boba. Estava sempre atenta e só se desligava do mundo quando ligava a TV para assistir os programas do Silvio Santos.

Certa vez, em meio às tarefas diárias, um vendedor bateu palmas em seu portão. Ela estava ocupada lavando louças quando escutou o chamado. Fechou a torneira, enxugou as mãos em seu avental florido e foi verificar quem havia aparecido naquela hora do dia para vender qualquer coisa.

Aproximou-se das grades que separavam a garagem da calçada e percebeu que era um jovem vendedor de panelas. Ela espantou-se com a quantidade de panelas que o rapaz carregava e enquanto ele falava sobre os benefícios de comprar aqueles utensílios, ela observava o árduo trabalho do falador.

 O dia estava quente e ela lhe ofereceu um pouco de água para ajudar em sua hidratação. Ele aceitou e agradeceu, dizendo que raramente alguém lhe tratava com cordialidade. Além da água, dona Ana também trouxe um pedaço de bolo de chocolate que seu filho havia comprado na padaria.

Embora a gratidão tenha tomado o coração do vendedor, ele sabia que precisava vender aquelas panelas e a senhorinha bondosa era presa fácil. Porém, mal sabia ele que a tal presa fácil era mais ligeira do que ele e não ia cair no papo furado de que aquela panela era melhor do que as panelas que ela já possuía.

Depois de explicar cada detalhe dos objetos, comer o bolo e tomar a água, o “maluco” perguntou se dona Ana ia querer comprar e até fez uma suposta promoção do tipo: pague 1 e leve 2. Só que a vózinha não estava preocupada com as panelas, mas sim com o peso que ele estava carregando. E com todo aquele carinho e compaixão, disse que ficaria com as duas da promoção.

E assim aconteceu. Voltou pra dentro pensando onde as colocaria, pois o armário estava lotado. Sem se preocupar e feliz por haver ajudado aquele cidadão, dona Ana colocou as panelas em cima da mesa e continuou o serviço do lar. Antes, foi verificar se os netos que jogavam futebol na área estavam comportados e sem nenhum arranhão.

O dia passou, a noite apareceu e seu neto mais velho, que morava com ela, chegou. Ao ver as panelas sobre a mesa a questionou:

- A senhora comprou mais panelas ou ganhou de alguém?

- Comprei, meu filho.

- Mas a senhora já tem tantas, por que comprou mais?

- Você sabe como é, né? Nossa cidade tem muitos morros. Eu fiquei com pena do moço e resolvi diminuir o peso que ele carregava.

O neto sorriu e foi para seu quarto. Sabia que sua vó não tinha jeito. O amor que ela tinha pelas pessoas era expresso em atitudes e não em palavras vazias.

sexta-feira, agosto 09, 2013

Dádiva

Só o travesseiro sabia,
Da falta de cor e lucidez,
Que o encobria sem permissão,
E o deixava sem paz.
Mas você apareceu,
Sorridente e encantadora,
E sem saber, o aqueceu,
Com muitas cores e sonhos,
Bagunçando e arrumando,
Quem um dia se esqueceu,
Do caminho de Casa.


segunda-feira, julho 08, 2013

Sem migué

Mergulhei nas Estrelas,
Visitei minha escuridão,
Enxerguei além do luto,
E escutei o barulho das águas.
Em meio à brisa do vento,
Senti a fragrância de um novo perfume,
Que há tempos não me cativava.
E sem entender,
A esperança relembrou a aliança,
A terra tingiu a alma,
E o abraço escreveu reticências.

sexta-feira, junho 28, 2013

Dama da madrugada

Porta trancada, janela com uma fresta aberta e a imprestável programação da TV como trilha sonora de um cenário caótico e perverso. O quarto de paredes brancas mofadas era o mocó daquele jovem, que sem forças de reação, afundava o nariz onde não era chamado.

Todo sábado era assim. Trabalhava até às 22 horas e ficava até uma da manhã vagando pelas ruas sujas daquela cidadezinha. Em seguida, passava na biqueira, comprava pó e caminhava ligeiro para o aconchego do seu lar. A madrugada era uma noiva do mal, que o tirava para dançar a dança vazia da desesperança.

A estante era uma grande amiga. Além de suportar as vozes que saíam da telinha da mentira, também era a mão que estendia a química da escuridão. Entre um tiro e outro, olhos atentos para ver se alguém aparecia. Com medo, não queria ser surpreendido por ninguém, muito menos por seus pais, que dormiam no quarto ao lado.

Pensamentos surgiam e o atormentavam: “Que barulho foi esse? Preciso trabalhar daqui a pouco! Porque estou fazendo isso? Alguém me ajuda!” – triste começo de juventude para um menino que mergulhou na fossa, como um nadador mergulha na grande piscina em busca da medalha de ouro.

O sono desaparecia e só restava a neurose. A vontade de dormir era imensa, porém o efeito não passava. Até o horário de sair para o trabalho, havia tempo suficiente para uma boa reflexão. Aquilo tudo era uma decepção para seus pais, que o criaram de uma forma decente. Também era injusto consigo mesmo, pois trabalhava o mês inteiro e deixava seu salário escorrer pelo ralo.

A depressão o consumia e o sono chegava junto com o nascer do sol. Já era hora de trabalhar. Seu cérebro não havia descansado e sua cabeça doía. “Porque estou fazendo isso?”, perguntava a si mesmo. Tomava um rápido banho e enquanto vestia o uniforme da empresa, assistia à missa que passava na tela. As palavras que entravam por seus ouvidos traziam uma mescla de esperança e desilusão.

Sem tomar café da manhã, desligava o aparelho, saia para a rua e caminhava rumo à labuta em pleno domingo. O ambiente deserto não escondia nenhum oásis para seu coração deprimido.


“Tenho que parar com essa porra...” – sua alma gritava.

segunda-feira, junho 24, 2013

Quinta-feira 13

Quando cheguei às 17h no Vale do Anhangabaú para trombar o Beninha e subir até a Praça Ramos de Azevedo, não imaginaria que aquela noite seria tão tumultuada. Sabia que seria histórica, pois havia uma multidão indignada com o preço da passagem e cansada de viver com as migalhas do pão e com as risadas forçadas do circo. Contudo, o cenário noturno das ruas apertadas do centro reservava algo a mais para todos nós.

Chegamos em frente ao Teatro Municipal e entramos no meio da multidão que cantava “mãos para o alto, 3,20 é um assalto” e outras músicas mais. Ali havia gente de partidos políticos, punks, universitários, torcedores organizados, senhores, senhoras, galera do rap e alguns policiais que ficavam observando de longe, encostados na parede do Shopping Light. Ah, até bandeira do PT tinha no lugar.

Não me lembro muito bem o horário que saímos em direção à rua da Consolação, só sei que quando cheguei por lá percebi que estava em meio a uma emboscada onde o Batalhão de Choque da Polícia Militar resolveu jogar bombas e dar tiros de borracha em todos nós, inclusive em mulheres.

Quando eles se reuniram atrás dos escudos e começaram a descer a lenha, só deu tempo de entrar no meio dos carros que desciam a rua e se proteger atrás dos ônibus. Enquanto alguns motoristas abandonavam seus automóveis e dezenas de manifestantes se ajoelhavam em frente dos armados, muitas pedras eram arremessadas e bombas eram chutadas de volta para os pés dos policiais.

Busão pichado, vidros quebrados, lixeiras pegando fogo e muito gás lacrimogêneo para os pulmões. Apesar da cena de batalha, isso foi só o começo da noite, ainda tinha muita bomba para chover e muita pedra pra ser tacada durante o zig-zag até a Avenida Paulista. Em cada esquina, um corre-corre para a imprensa filmar lá do alto, protegidos em seus helicópteros.

Os repórteres que caminhavam ao nosso lado também levaram seus prejuízos. Foram presenteados com tiros de borracha na cara, bombas e detenções. Eu não vi ninguém sendo preso, fui perceber o tamanho da gravidade somente quando cheguei em casa e entrei na internet.

Logo após o primeiro incidente, encontrei uma parte do grupo que já estava na Rua Augusta e andamos até a esquina que fica antes do Hotel Panamericano. Em frente ao hotel, havia muito escudo e carros que impediam a nossa passagem. Tivemos que mudar o caminho novamente e buscar outro acesso para a Paulista.

Durante o nosso trajeto, muitos olhos curiosos (não, não é não, não é o zoológico) apareciam nas janelas e portas dos edifícios. Olhares de desprezo que não acreditavam que aqueles metros quadrados tão valorizados estavam ganhando um valor a mais, algo que não tinha cheiro de dinheiro e muito menos de ostentação, mas de suor, fumaça e gás lacrimogêneo.

Até que chegamos na Rua da Consolação novamente e fomos encurralados. A cavalaria estava no local e a covardia continuou, somada ao ódio dos outros  policiais, que atacavam sem dó a multidão que estava sentada. Todos se levantaram e começaram a correr em direção à única rua de escape, da qual não me lembro do nome.

Era tanto gás lacrimogêneo que eu não estava respirando direito. Olhava pro Beninha e falava que o barato tinha ficado louco e que eu precisava sair dali. No meio do barulho das bombas, uma garota me escutou falando e voltou para jogar vinagre na manga da minha blusa. Nem me lembro do seu rosto, mas sou eternamente grato pela sua boa ação.

Logo depois, conseguimos correr até a Paulista e de lá veio mais bomba que nos empurrou para fora da avenida. Quando me dei conta, estava na Doutor Arnaldo, em frente ao velório do Cemitério do Araçá. Nesse momento não havia muita gente, aquela multidão tinha se dispersado e em frente ao Metrô Clínicas havia mais polícia jogando bomba na gente.

Começamos a descer correndo o morro do cemitério. Logo nos primeiros passos vi um carro de luxo tentar um strike. O motorista ficou tão desesperado que quase atropelou a galera. Um segundo carro tentou fazer a mesma coisa, mas não teve a mesma sorte e a lataria deve ter sofrido com o impacto dos chutes.

Pensei que o Choque não fosse descer o morro, mas a perseguição seguiu até a Praça Charles Muller. Quando passei em frente ao portão do Tobogã do Estádio da Prefeitura, apesar da tensão, cantei uma música do SPFC para os seguranças que nos olhavam com espanto e continuei correndo.

Enquanto alguns sumiam pelo caminho, eu e o Beninha decidimos descer as escadas da Praça. Mudamos de ideia quando o pessoal, que escutava música em seus carros equipados, começou a fugir em alta velocidade, deixando o local deserto. (A cena dos carros em fuga lembrou Velozes e Furiosos).

Em meio à trilha sonora que nos acompanhava desde o começo da jornada, chegamos até a banca de jornal que fica no pé do morro e paramos os carros, que tiveram a bondade de esperar a gente passar. Como não podíamos descer a Avenida Pacaembu e nem subir de volta pelo outro lado, pois havia viaturas por todas as partes, corremos para a Avenida Arnolfo Azevedo e ficamos uma meia hora parados em um posto de gasolina.

No meio dessa correria, minha mãe me mandou uma mensagem no celular:

“Você já está voltando pra casa?”

Respondi que estava indo para o metrô. Eu nem sabia que a TV estava mostrando os fatos. E vocês sabem que a mídia curte um sensacionalismo. Talvez minha mãe estivesse pensando que o filho dela estava em Bagdá.

Quando o tempo acalmou por ali, subimos por outras ruas e chegamos ao metrô Sumaré. Para nós, o sufoco da noite tinha acabado. Dentro do vagão fiquei pensando o porquê da reação da polícia, se ninguém tinha feito nada. Inclusive presenciamos um acordo entre o pessoal do MPL e um comandante da PM, segundos antes do primeiro disparo.

Difícil descrever aquele dia, escrevi o que lembrei. As imagens ainda estão vivas na memória e a emoção vem à tona sempre que recordo daquelas horas de tensão. Ah, e além do barulho e da irritação, o gás lacrimogêneo me rendeu meia hora de inalação na UPA e alguns remédios, pois descobri que tenho algum tipo de alergia, que a médica não soube me explicar.

terça-feira, junho 11, 2013

Caminho sem atalho

De Kamchatka pra cá, sonhei diariamente com a aurora, que demorou muito para aparecer. Pelo caminho, bastante empatia. No solo de Sierra Maestra, quem pode menos sorri mais. Difícil entender e muito complicado explicar. São vivências que foram guardadas em porta-retratos e lágrimas que caem quando se sabe que é impossível voltar para Thundera.

Proceder de forma equivocada é inevitável. É um absurdo cobrar a perfeição de quem poderá chegar aos 80 anos e não ter aprendido quase nada. Pois muito se aprende nesse planeta, porém o essencial é desaprendido quando se é instruído no secundário. Então, mãos à obra, garoto!

Temi desaparecer mesmo tendo sido encontrado. Não queria o utilitarismo, e o martelo bate maldade no olhar e bastante malícia nos diálogos. Tive que reaprender, encontrar trilhas e construir neurônios resistentes e sagazes. Talvez tenha conseguido e nem me dei conta, ou “se pá”, fui ludibriado e estou achando que está bom.

Mas ainda “tengo los lagos, tengo los ríos, tengo mis dientes pá cuando me sonrío”, e isso evita o consumo de muitas drogas das diversas farmácias da região. Imagina o gasto com remédios, é caro demais, uns dizem que as drogarias são as biqueiras do Estado, mas eu não entendo muito sobre isso.

O legal são as diferenças, contudo, o diferente às vezes é muito parecido. Eu não quero certas coisas, mas não sei o porquê eu desejo coisas que nem preciso. Será que as coisas que eu não preciso trarão algum benefício pra mim? Dizem os comerciais que sim, que eu ficarei mais feliz e bonito, eu acho que isso é mentira.

No caminho até Havana, muitos amigos nasceram. Pessoas que eu nem imaginava conhecer. Alguns gols também foram marcados e a arquibancada sorriu quando eu apareci depois de anos de ausência. Até a ruazinha de lá ficou com ciúme da ruazinha de cá, mas isso é bobagem. Eu gosto das duas.

Ah, Thundera era legal, mas o 3º Mundo também tem seus desafios. E na verdade, é isso que me mantém vivo e reflexivo. Continuo desenhando o caminho, e quando posso, olho para o céu e vejo estrelas, nuvens e um satélite que sobrevive fora do tempo.

domingo, junho 02, 2013

Sem perder a ternura


É o fim da linha, a casa caiu.
E agora, meu parça?
Cadê o coração resistente
de quem não está no poder?
Pense bem, olhe bem,
não acredite, duvide!
Há muita conversa e muito papagaio.
Há muita cegueira e muita prepotência.
Cuidado,
se vacilar, te levarão pra grupo,
e teu choro não comove.
Então é com você, meu camarada!
Sem máscara, sem justificativa,
e sem sobrenome.

domingo, maio 19, 2013

A simplicidade extraordinária de cada dia nos dai hoje


Acordei bem disposto naquele dia e desejei viver uma história diferente. Estava cansado de olhar pelo mesmo ponto de vista. Tudo que eu tinha que fazer era idêntico ao que eu havia feito no dia anterior. Nada mudaria, a não ser que eu sofresse algum atropelamento ou fosse assaltado.

Abri meus olhos, me espreguicei, levantei da cama e fui para o banheiro. Liguei o chuveiro, deixei a água cair sobre meu rosto e pensei nos cinco pãezinhos que eu iria comer no café da manhã. A manteiga havia acabado e eu só tinha cinco pesos pra comprar os pães. Teria que pedir um crédito para o senhorzinho da venda.

Após o banho fui escovar os dentes e percebi que o creme dental havia acabado. Decidi me vestir e depois resolver esse problema. Coloquei minha velha bermuda jeans, minha camisa vermelha e meu chinelo preto. Peguei uma faca e cortei o tubo do creme dental ao meio para utilizar o restinho que ainda tinha, assim pude deixar meus dentes mais brancos e resistentes, como diz o comercial da TV.

Peguei as moedas e fui até a venda. No caminho conversei com os meninos que vendiam alguns saquinhos com cinco pedacinhos de cana-de-açúcar, ao preço de dois pesos cada. Eles esperavam os carros pararem no cruzamento da movimentada rua e ofereciam seus produtos naturais aos motoristas e aos passageiros dos ônibus. Cada guerreirinho daqueles devia ter 11 anos no máximo.

Depois passei para falar um bom dia para a senhora camponesa que vendia maçã, banana, laranja e outras frutas em um carrinho de mão. Ela sorriu e disse: “Buen dia, joven. Cómo le vá?”. Eu respondi que estava tudo bem e que iria comprar uns pães para o café da manhã.

Entrei na venda e o Don Hugo estava assistindo TV. Quando me viu, se levantou do banquinho para me atender. Também disse que sua esposa havia trazido alguns pãezinhos da escola em que ela trabalhava e que havia guardado para mim. Na hora fiquei muito feliz, pois sobraria dinheiro pra comprar a manteiga.

Voltei para o meu quarto com o saudável café da manhã, liguei o radinho e coloquei a água para ferver. Enquanto a água fervia, passei manteiga nos pães e coloquei algumas folhas de coca na xícara de asa quebrada que eu sempre usava.

A água ferveu, o pão estava perfeito e o chazinho me lembrava do chá de hortelã que eu tomava quando era criança. Alguns dizem que a folha de coca é prejudicial, mas eu penso que o processo de maldade que é feito com ela, até uma azeitona com mil produtos químicos faria dano.

Lembrei que precisava lavar minhas roupas. Porém, no local havia um único tanque e o varal sempre estava cheio de roupa dos outros moradores. Então decidi colocar tudo na mochila de viagem que meu pai havia me presenteado e seguir até a casa da Yara. Enquanto colocava as roupas, lembrei da minha mãe, pois se ela visse o estado das golas das minhas camisas, ela certamente brigaria comigo.

Fui até o ponto esperar o micro e de repente apareceu um camarada que era pastor de uma igreja. Ele disse que estava com saudades, que eu desapareci, que todo mundo estava sentindo minha falta e etc. Normalmente pessoas de grupos religiosos falam isso quando te veem na rua, sempre expressam uma dor extraordinária de saudade.

Eu lhe disse que não fui porque estava indo em outra igreja, que era mais próxima da minha casa. Também expliquei que estava buscando um emprego e que a faculdade estava me consumindo, pois os professores estavam passando muita tarefa.

Ele mudou um pouco o assunto e disse que ficou sabendo que eu estava passando umas dificuldades financeiras, que mal podia comprar o feijão. Respondi que sim, mas que o arroz e a sardinha nunca faltaram – brinquei para ele entender que existe desgraça maior no mundo.

Com  olhar de sabedoria e voz de experiência, ele me perguntou se eu estava dando o dízimo. Falei que não, que se eu desse 10% do pouco que eu tinha, não conseguiria pagar nem o aluguel. O papo acabou ali, ele disse para eu refletir num tal de “princípio da semeadura” e foi embora cuidar de seu rebanho. Fiz uma cara de indignação e em seguida o ônibus chegou.

Após meia hora dentro daquela lata de sardinha, cheguei ao meu destino. Apertei a campainha, abracei a Yara e coloquei minhas roupas dentro da máquina. Usei o restinho de sabão em pó que eu tinha comprado semanas antes e as deixei limpinhas. Elas não ficaram tão limpas quanto as do comercial da TV, mas pelo menos estavam cheirosas.

Em meio ao vento forte, estendi a roupa e entrei para almoçar. A Yara tinha preparado arroz, feijão, bife, salada e na geladeira tinha refrigerante. Era um banquete, e ela cozinhava perfeitamente. Foi um almoço daqueles que a gente não esquece. Repleto de tempero, acompanhado de uma conversa de qualidade.

A comida do prato acabou e o refrigerante do copo também. Como de costume, lavei toda a louça e a Yara secou. Varremos a cozinha e passamos um pano pra deixar o local brilhando, iguais àqueles incríveis pisos que são mostrados no comercial da TV.

Em seguida, fui até o varal e recolhi as roupas que já estavam secas. Dobrei direitinho e coloquei na mochila. Faltou uma bermuda e três camisas que ainda estavam úmidas. Deixei que elas secassem totalmente e quando eu pudesse voltaria para buscá-las.

Agradeci minha amiga por ter me ajudado, dei aquele abraço de despedida e fui até a avenida pegar o ônibus de volta para o centro da cidade. No caminho, bateu aquela saudade de casa. De poder jogar vídeo game com meu irmão e brincar com o Bili. É complicado, estar sozinho dentro do busão faz a mente pensar mais do que o normal.

Desci do precário transporte público em que me encontrava, passei na venda novamente, pedi ao Don Hugo que me vendesse uma pasta de dente fiado e fui pra casa. Cansado, deitei na cama, que parecia ser aquele colchão macio que aparece no comercial da TV, e fixei meus olhos no teto.

De repente minha mente se acalmou e comecei a agradecer a Deus pelo dia diferente que eu vivi. Fui muito grato por Ele ter colocado pessoas e situações especiais no meu caminho, mesmo eu sendo um amaldiçoado aos olhos do pastor da tal “lei da semeadura”. 

sábado, maio 11, 2013

O fim da linha e o começo da luz

“Nunca deixe faltar amor ao seu filho, se tem alguma coisa que pode salvá-lo, é o seu amor por ele. Nunca o abandone, vão ter muitas pessoas dizendo que não tem jeito... mas isso é mentira. Acredite em Deus e não perca a esperança. O dia do fim da luta pode demorar a chegar, mas durante os dias de batalha mostre que ele não está sozinho, pois você está com ele.”

Ela não estava dentre as pragas enviadas ao Egito, e chegou de forma devastadora ao nosso tempo. Na sutileza, ela corrói crianças, jovens e adultos, de ambos os sexos. Também arrasa famílias, aumenta a criminalidade e lota cadeias e cemitérios. Seu nome é droga!

Esta incômoda inquilina chegou até a casa de Flávio Benedito da Silva, morador de uma cidadezinha da Grande São Paulo, e resolveu morar um tempo na vida de seu filho.

"Percebi que as coisas não estavam bem. Primeiro desconfiei pelas atitudes dele. Logo depois surgiram os comentários de amigos, pois a cidade é pequena e é impossível esconder de todo mundo", conta.

Quando o problema veio à tona, Flávio já era separado de sua esposa que passou a morar em outro bairro da cidade. Pai de três filhos, ele sempre estava presente na vida de seus herdeiros, ensinando e aconselhando sobre como se deveria levar uma vida digna e longe de complicações extremas.

Devido ao pouco conhecimento sobre o assunto, a primeira reação de Flávio foi se posicionar de uma forma autoritária. O preocupado pai impôs ao filho que abandonasse de vez aquela vida, porém todas as ordens foram em vão, e o caos familiar só aumentou.

"O Renan começou a usar com 15 anos, mais ou menos. A princípio era maconha, porém terminou viciado em crack. Mas acredito que nesse percurso ele tenha experimentado outros tipos de drogas também", lamenta.

Para o pai de família, foi terrível ver a mudança que ocorreu na vida do garoto. Aquele menino que jogava bola descalço na rua, empinava pipa e rodava pião, se transformou em um jovem sem esperança, que mentia o tempo todo, inventando histórias absurdas e persuasivas.

Renan não era agressivo e nunca foi violento dentro de sua casa. Isso ajudou a não piorar a situação. O pai acredita que em nenhum momento esta situação trouxe uma possível união entre pais e irmãos, em favor do garoto.

"Tivemos muitos problemas. O irmão mais velho não aceitava de maneira nenhuma o tratamento amoroso que o irmão mais novo recebia da minha parte. Para ele, eu devia colocá-lo para fora de casa, já que as mentiras e os furtos dentro do lar eram frequentes", desabafa.

Os anos se passavam e a situação não melhorava. Até que em determinado momento, ao enxergar e compreender seu estado de dependência química, Renan entendeu que precisava ser internado em uma clínica de reabilitação.

"Entre idas e vindas, ele foi internado pelo menos umas seis vezes, mas todas por sua própria vontade. Nunca fugiu, mas abandonava, com conhecimento dos responsáveis", explica.

O pai, que nunca desistiu de seu filho comentou que a principal característica de quem está preso no mundo das drogas é a mentira, e que, apesar de ter esperanças na reabilitação de seu filho, já chegou a pensar que Renan morreria. "Claro que já pensei que o pior poderia acontecer, não tanto pela droga, mais pela vida que levava e pelas suas companhias. Ele não distinguia mais o certo e o errado, arriscava tudo para conseguir dinheiro e manter seu vício", diz.

Logo após a última internação, o garoto que já tinha 22 anos decidiu mudar de cidade e partiu para Maringá, no Paraná. Lá, ele se juntou a uma ONG cristã chamada Jocum (Jovens com uma Missão), que realiza trabalhos sociais. Neste novo ambiente, conheceu uma outra forma de levar a vida.

A distância da família o fez valorizar seus pais e irmãos, que agora vivem mais unidos do que antes. Renan virou o orgulho da família e exemplo de superação. Atualmente ele está casado, continua morando na ONG e realiza trabalhos com detentos e dependentes químicos.

Enfim, esta história ainda não teve um final, mas é possível dizer que apesar dos graves problemas, houve momentos de grandes alegrias e triunfos. Este pai que durante anos teve a vida de seu filho sequestrada pelas drogas, conseguiu reverter esta situação e trazê-lo novamente para uma vida social digna e honesta.

Um apelo que Flávio deixa aos familiares que estão passando por este grande sofrimento, é que nunca desistam:

"Não importa a sua crença. Entregue na mão de Deus, que só Ele pode resolver. Não importa clínica cara, médicos e outros tratamentos de primeira grandeza, se não partir de dentro de quem precisa ser ajudado, nada que for tentado surtirá efeito. Acredite em Deus e ame seu filho, pois o amor já é a maior ajuda que Deus te dá, uma vez que Deus é Amor", siz o pai, que é um exemplo de dedicação e persistência.


quarta-feira, maio 01, 2013

Eae amigo, firmeza?

- Alô, Dona Ana? O Paco está por aí?

- Quem quer falar com ele?

- É o Beiço que tá falando. Pô, Dona Ana, a senhora não reconhece mais a minha voz?

- Oi, meu filho, desculpa. Tô tão desligada nesses últimos dias que nem percebi. Vou chamar aquele moleque, peraí!

- Eae Beiço, que pega?

- Boa tarde, mano. Liguei pra trocar uma ideia, tô meio tristão. O que você tá fazendo aí?

- Tô de boa aqui. Trocando uma ideia com uma mina que adicionei no Facebook. Mano, maior gatinha, depois te mando o link.

- Da hora, mano. Eu tô sem computador, queimou na semana passada.

- Séloco, como você consegue viver sem computador?

- Ah, mano. Vou fazer o quê? Tô sem grana pra mandar arrumar. Mas então, acabei de tomar um café da tarde com meu irmão. Compramos aquele bolo de chocolate que vende na padaria da praça. Tá ligado?

- Tô ligado.

- Então, a gente tava tomando café e lembrando da mãe. Hoje faz três meses que ela faleceu.

- Podi crê, mano. Meus sentimentos mesmo.

- Por isso te liguei. Queria conversar. Mó saudade da minha velha.

- Tenso né? Mas aí, acabei de ver uma parada aqui no Facebook. Um amigo postou uma foto muito hilária. Tem gente que não tem noção do que posta.

- É mano, tem gente que perde a linha. Mas ae, tô afim de colar no cemitério amanhã de manhã. Tá afim de ir comigo? Não quero ir sozinho.

- Amanhã de manhã não posso. Tenho que estudar pra prova.

- Entendi. E de tarde?

- A tarde também não vai virar, mano. Vou pra academia.

- Firmeza. Pô mano, tô preocupado com meu irmão, ele tá malzão. Até comprou outra marca de café pra não sentir o cheiro do café que a minha mãe fazia.

- Caraca, que fita. Eu vi no Facebook que na terça-feira foi o dia do professor. Sua mãe era professora, né?

- Era sim, até escrevi um poema pra ela. Quer que eu leia?

- Não precisa, mano. Depois você me mostra. Tô aqui falando com você, vendo o jogo do PSG e dando ideia na mina que te falei.

- Tá certo. Não sei como você consegue fazer três coisas ao mesmo tempo. Acho que você não aproveita nenhuma delas com qualidade. Não dá a atenção adequada para nenhuma.

- É osso, mas tô acostumado.

- Meu pai me ligou ontem. Disse que mês que vem ele aparece. O velho não tá nem aí pra gente. Arrumou outra família e nem dinheiro está mandando. Deixou a gente na mão. Graças a Deus que a Dona Amélia está nos ajudando. Ela faz o nosso almoço e a nossa janta.

- Mano, desculpa cortar, mas você viu o vídeo do maluco que caiu da árvore?

- Não, onde?

- Tá no Youtube, vê lá depois. Você vai chorar de rir. Tem uns caras que não tem noção do ridículo.

- Podi crê. Então mano, não vou mais te atrapalhar. Fica em paz aê, abraço.

- Obrigado. Melhoras aí, Beiço. Qualquer coisa você sabe que pode contar comigo. Falô.

domingo, abril 14, 2013

Barriga vazia, oficina do Tião

O frio congelava os pés de Tião enquanto o relógio avisava que era hora de ir trabalhar. Eram seis da manhã e aquele corpo não queria sair da cama de jeito nenhum. A vida, no entanto, não estava fácil e se ele chegasse atrasado mais uma vez, corria o risco de ser demitido por justa causa.

Apressou-se. Escovou os dentes, colocou o uniforme azul do serviço, calçou as velhas botas pretas, pegou o capacete, a chave e os documentos. Montou em sua CGzinha e saiu em disparada para a empresa. O trajeto demoraria trinta minutos, tempo suficiente para bater o cartão na hora certa.

Sua barriga não roncava, ela berrava. Encontrava-se faminto e debilitado, pois havia jogado futebol na noite anterior, e de tão exausto, dormiu sem jantar. Pensou em parar na padaria, mas desistiu ao lembrar que perderia muito tempo ali. Continuou seu caminho e ao brecar no semáforo de um cruzamento, teve uma ideia muito original.

Em segundos, Tião bolou um plano bem ousado que tinha tudo para dar certo. Era só entrar no local, pegar o pão, tomar um cafezinho e sair andando. Em menos de um minuto ele estaria com um pão no bolso da jaqueta e um pouco de café dentro da barriga. O farol abriu e ele saiu como uma flecha em direção ao alvo.

Depois de passar pelo supermercado, ele precisaria virar a primeira à esquerda, e no final daquela rua estreita, haveria um prédio branco muito conhecido e frequentado: o velório. Ali, deixaria a moto no estacionamento que fica ao lado da porta principal e entraria como se fosse amigo do falecido. Caminharia até a cozinha e desenvolveria seu plano mirabolante.

Havia umas vinte pessoas velando um homem. Tião foi ligeiro e não perdeu tempo. A meta era vencer o seu algoz que o atormentava naquela gelada manhã. Estacionou, tirou o capacete, fez cara de triste, entrou e partiu em direção à cozinha. Pediu licença para uma senhora que estava no lugar, passou manteiga no pão, guardou o alimento no bolso, tomou dois copos de café e disfarçou.

Começou a ser notado por todos e uma senhora, amiga do morto, percebeu a malandragem do motoqueiro. Um rapaz que se encontrava sentado perto da janela levantou-se e chegou perto de Tião perguntando se ele conhecia o homem que havia ido desta para melhor. Indignado, o faminto fez uma cara de lamento e respondeu:

- Pow, claro que conheço, fiz vários rolês com ele. Estou inconformado com esta perda. Agora me dê licença que preciso ir trabalhar.

A senhorinha observou toda a situação e disse em voz alta: Que sem-vergonha, fazia oito anos que o Antônio não andava. Como ele tem coragem de insinuar que já fez vários rolês com um homem de 73 anos que passou seus últimos momentos de vida preso em uma cama?

Enquanto familiares e amigos conversavam sobre o caso, Tião chegava em cima da hora em seu trabalho, comendo um pãozinho com manteiga e pronto para encarar oito horas em frente de uma máquina.