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segunda-feira, janeiro 11, 2016

Medidas

Quanto vale a pena?
A saudade por opção
Sem visita
Sem abraço
Sem laço
No anonimato
Sem afeto
Sempre corrido
Sem porto seguro
Apenas a falta
Que esmaga
E aponta o local
Que o coração quer voltar.

domingo, janeiro 10, 2016

O Acidente

Olá, Anita.

Quanto tempo, hein! Passei um tempão sem escrever pra você e sem saber como você está. Certamente deve estar feliz com o título da Copa do Brasil, pois seu pai está alucinado com a conquista.

Então, ainda moro em Maringá. Acredita que quase me mudei desse planeta? Foi por pouco. Eu estava na garupa de uma moto e meu amigo perdeu o controle. Fui lançado em uma placa de trânsito e matei a placa como se mata uma bola de futebol. Permaneci estirado no meio da rua, desmaiado, talvez por uns 10 minutos.

Acordei quando já estava amarrado a uma maca, entrando em uma ambulância. Abri os olhos e me assustei, porque nem sabia o que havia acontecido. O pessoal do resgate foi muito competente e serei grato a eles pelo resto da vida. Cheguei ao hospital e logo um enfermeiro veio me receber, não me lembro muito bem, mas havia uma fila de maca pra entrar para o corredor, depois para o raio-x e depois para o corredor novamente, já que não havia lugar disponível nos quartos.

Meu celular estava sem bateria e só consegui avisar a minha namorada cinco horas depois do acidente. Foi uma moça que acompanhava outro acidentado que me ajudou a ligar, e logo a Estéffany chegou para me ver naquele estado. Confesso que quando ela apareceu eu comecei a chorar, sei lá, me sentindo culpado por ter me envolvido nessa bagunça toda. Os funcionários não a deixaram ficar muito tempo no corredor, alegando que se quisesse permanecer no hospital teria que esperar nas cadeiras da recepção.

Durante a madrugada, um ladrão que estava recebendo atendimento conseguiu fugir. Só escutei os gritos e vi uma policial em choque, correndo com uma arma em punho. Imagina se ela atira? Ainda bem que ela foi sensata e não quis colocar a vida dos enfermos em risco, apesar de que ali, todos corriam algum tipo de risco.

Quando amanheceu, lá pelas seis da manhã, chegaram vários estudantes de medicina. Uma médica ia de maca em maca, andando pelo corredor, questionando os doentes e mostrando aos futuros médicos como se entrevista alguém jogado em um corredor de hospital. Enfim, depois desse fato, me liberaram.

Cheguei em casa com um corte perto do pescoço e uma dor enorme no ombro. Após dois dias, na sala de casa, minha clavícula quebrou. Um amigo conseguiu uma carona e eu voltei para o hospital. Descobri que me liberaram com o osso trincado. Naquele momento, se iniciou um tempo difícil e desgastante, porque longe de casa, tive que depender das pessoas até para cortar um simples bife.

Após três meses e meio eu fui liberado pelo médico para retirar o oito que prendia minhas costas e ajudava minha clavícula a ficar reta. Mesmo separados por alguns centímetros, meu osso colou. Nasceu um calo gigante que os uniu novamente. Porém, meu braço ainda não está legal, meu ombro perdeu o movimento e aos poucos está voltando a se mexer.

Sabe, nesse tempo eu aprendi bastante. Primeiro que moto não é brinquedo e segundo que algumas pessoas são especiais e vão estender as mãos quando for preciso. Vou te contar alguns segredos, mas nem comenta com ninguém: Um grande amigo me mandava mensagens semanalmente dizendo para eu me alimentar direito e até falava o que eu deveria comprar no mercado para seguir uma alimentação que me ajudasse a sarar mais rápido. Outro amigo, que também havia quebrado a clavícula, me disse como funcionaria todo o processo de recuperação. Acredita que tudo que ele me disse aconteceu? Esse amigo me acalmou bastante, pois eu fiquei bastante nervoso e confuso com a fratura. Voluntariamente, duas amigas me mandaram dinheiro, bem no mês que recebi metade do salário e estava precisando muito (elas nem sabem que foram superimportantes). O pessoal de casa também me auxiliou demais e tiveram bastante paciência comigo, até mesmo quando surtei e meti o pé na porta (sim, quebrei a porta). Minha namorada foi amiga, parceira, médica, cozinheira, psicóloga e também precisou ser muito paciente quando eu fazia drama e achava que o osso não ia colar nunca mais. Outros amigos também apareceram e me mandavam mensagens de apoio diariamente.

Olha, foi tenso esse tempo. Minha vida passou diante dos meus olhos durante esses meses. Aprendi a tirar o lado bom de tudo isso. Já que aconteceu, vou tirar uma importante lição de toda essa confusão e colocar em prática o que aprendi.

Quero deixar um pedacinho de uma poesia do Sérgio Vaz para você: “Tenho más notícias: quando o bicho pegar, você vai estar sozinho. Não cultive multidões”.

As palavras do poeta me ajudaram a enxergar que cultivar multidões não é bom, e bom mesmo são os poucos amigos que temos. Eles são valiosos como água no deserto.

Escrevi demais, né, Anita?
Desculpa, mas foi a primeira vez que consegui escrever sobre o acidente.

Que você tenha um ótimo 2016!
Beijão!


Marquinho.