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domingo, dezembro 30, 2012

Take you back



O dia 23 de dezembro de 1999 havia chegado e para comemorar o instável ano vivido, resolvemos ir até o Bar do Noel parar trocar uma ideia e beber alguma coisa. Clima agradável e nenhum sinal de chuva. Céu azul cheio de nuvens, cinco e meia da tarde e vento suave pra refrescar.

O convite partiu do Dudu, que trabalhava no Bar do Escobar e naquele dia havia recebido 100 reais de presente de um cliente. Então eu e o Tidão sabíamos que o nosso amigo estava encarregado de pagar tudo que seria consumido. Lembrei-me que havia parado de beber na semana passada, após ter dormido, bem louco, na varanda da minha casa. Mas, aceitei o convite e disse a mim mesmo que seria a última vez que levantaria um copo de álcool.

Descemos o morro e, na metade da ladeira, pedi para que esperassem alguns minutos. Entrei em casa, coloquei o Rider nos pés, vesti uma regata do São Paulo, e saí rumo ao famoso bote da esquina da Castro Alves. Chegando lá, o Fubá e o Noel preparavam um churrasco na calçada. Os olhos do Dudu brilharam e após um sorriso, comentou:

- Pô mano, demos sorte. 

Eu pedi um bombeirinho e o Tidão preferiu uma maria-mole. O Dudu pegou uma latinha de Skol e encheu a boca da lata de sal e limão.

Havia muito movimento na rua. Carros, motos, ônibus e caminhões passavam em um ritmo frenético. Vários "malucos" que haviam saído do serviço paravam no bar, tomavam uma “breja” e uma cachaça, comiam a carne e iam embora para suas casas.

- Aê Noel, desce uma cerveja pros meninos, é por minha conta - gritou Preto, que estava animado com o clima de Natal que envolvia a todos.

Dentro do bar, o velho rádio tocava moda de viola e deixava o ambiente do jeito que os jogadores de truco gostavam. Já na calçada, a trilha sonora ficava por conta dos automóveis e das vozes que não se cansavam de contar histórias.

Enquanto a escuridão da noite chegava, as luzes dos postes se acendiam e o nosso papo continuava a "milhão". Analisamos os detalhes daquele ano que estava prestes a findar-se. Lembramos das partidas de futebol na quadra da escola do Bairão e dos jogos que acompanhamos nos estádios. Também recordamos dos problemas de nossas famílias, das festas de rap e das "pixações".

- É mano, espero que ano que vem tudo seja diferente. Que as neuroses não nos consumam - comentei.

Também recordamos dos amores vividos naqueles últimos 12 meses. Colecionamos alegrias e decepções, porém, vivemos a dinâmica da vida.

Tidão citou que para o próximo ano deveríamos valorizar mais as nossas famílias. Olhar com mais amor para os nossos pais e respeitá-los. "Talvez, se mudarmos os nossos comportamentos em nossas casas, a vida fique menos pesada e haja mais harmonia em cada lar", explicou exalando esperança.

Família bagunçada sempre foi um problema por aqui. Era só sair na rua para ver que cada sorriso no rosto dos “muleques” era acompanhado pela tristeza enraizada em seus olhares. Contudo, apesar dos pesares, buscávamos um caminho de paz em meio às turbulências da vida.

O papo fluía na mesa quando o sino da Igreja Matriz avisou que havia chegado a vigésima segunda hora do dia e o Noel resolveu encerrar o expediente, acabando com a festa da rapaziada.

- Eu sei que o papo está bom, mas eu tenho família. Vamos acertar a conta porque eu vou fechar o bar - falou o proprietário, com um sorriso no rosto.

Um por um entrou no bote e acertou o que devia. Dudu nos olhou com cara de quem mudou de ideia e perguntou:

- Vocês vão rachar a conta? 

- Jamais. Você nos convidou e prometeu pagar sozinho – respondi.

Com semblante de inocente, ele foi até o balcão e pagou a conta. Eu e o Tidão ajudamos a recolher as cadeiras e as mesas, e o Fubá apagou o fogo, deixando os tijolinhos da churrasqueira na calçada.

Luz apagada, porta de aço fechada, desejos de Feliz Natal à todos e pronto, já era a hora de subir o morro.
Passos lentos para não cansar, subimos felizes por havermos passado aquele tempo retrospectivo. Mas, ainda era cedo para dormir e devido à disposição do momento, decidimos sentar na esquina da casa do Dudu e continuar a conversa.

Apesar das nuvens, a lua apareceu para dar um salve. Não tínhamos uma fogueira igual aquela dos amigos do Rocky Balboa e nem sabíamos cantar como eles, mas abrimos um vinho e ficamos ali durante a madrugada, desfrutando de uma amizade não utilitária e falando qualquer coisa para relaxar a mente.

sexta-feira, dezembro 21, 2012

Diário


O trabalho desafia
O ponteiro cansa o físico
A mãe prepara a refeição
O trabalho exige mais
A fome grita por um pedaço de pão
A água desce gelada
No arroz tem milho e tomate
A ducha aquece
A TV mente
A cama relaxa
O travesseiro condena
O cachorro late
E os sonhos inspiram.

sábado, dezembro 08, 2012

São Paulo 3x1 - 02.12.2012


Pai, fui no Pacaembu e fiquei no lugar onde você me ensinou a ficar. Lembra que eu entrava de graça porque era menor de 12? Entao, hoje com o time reserva, a gente atropelou um timinho aí. Muito obrigado Machadinho. Aqui é o Tricolor do Morumbi. Hoje eu cantei por mim e por você! Te amo! Saudade! 


segunda-feira, dezembro 03, 2012

Vou te falar, hein!


O sol havia cansado de trabalhar e foi descansar. A escuridão chegou e as luzes que ficam no alto dos postes começaram a labuta do turno da noite. A rua encontrava-se movimentada e pessoas de todos os tipos e histórias caminhavam por ela. A rua amava ser aceita por todos.

A garoa e o frio deixavam o cenário mais apropriado para aqueles que não gostam de calor e na esquina da Rua Augusta com a Rua Peixoto Gomide, cerca de dez pessoas dividiam o toldo de algum comércio. Dentre essas dez pessoas estavam o Diegão, a Rúbia, o Magal, a Karol e eu.

Enquanto o Diego contava uma história sobre o tempo em que ele pintava paredes, eu conversava com um são paulino que vendia bebidas em uma caixa de isopor. A ideia estava fluindo e novos assuntos apareciam quando um senhor me pediu uma moeda. Ele vestia uma blusa de lã azul e uma bermuda azul escuro. Na mão esquerda, segurava um copo com vinho  e talvez estivesse há dias sem tomar banho. Entreguei um valor de metal e perguntei seu nome. Cheio de serenidade me respondeu:

- Prazer, me chamo Siqueira!

Eu gosto de conhecer pessoas no rolê. O Leonardo nunca mais foi pra nenhum lugar comigo. Ele me disse que eu quero fazer amizade com todo o mundo e por isso ele prefere ir para onde eu não estou.
Perguntei ao meu novo conhecido de onde ele estava vindo. Sorridente, me respondeu que estava caminhando, sem rumo e que naquele dia iria "chapar o côco" .

Siqueira é santista e me disse que o Ganso é um traidor, que não deveria ter ido para o São Paulo. Não concordei e afirmei que os melhores jogadores sonham em jogar no melhor clube do Brasil.
A chuva ficou mais forte e não tínhamos como nos esconder porque o toldo era pequeno demais. Mas, a rua continuava movimentada. Alguns passavam gritando e outros circulavam em seus carros com um som alto que tocava uma música qualquer, da moda.

A Karol foi até o maluco do isopor e comprou um refrigerante para mim. Tomei um pouco e ofereci ao Siqueira, que aceitou, tomou e devolveu a lata. Entre um gole e outro, perguntei se ele estava na rua porque não tinha opção ou se ele tinha um lar e mesmo assim resolveu abandonar tudo. Ele me olhou e disse: 

- Marquinho, não quero mentir pra você, então não vou responder.

Eu olhei, gostei da ideia e respondi:

- Firmeza, mano.

A chuva continuava forte e o maluquinho da bebida continuava vendendo seus refrigerantes e suas cervejas. O movimento era intenso e o lucro aumentava a cada minuto. Mas, ele tinha uma preocupação, o "rapa" poderia aparecer a qualquer momento, quebrar seu isopor e levar todas as suas latinhas e as suas lindas garrafinhas de Heineken.

Comecei a contar para o Siqueira sobre a minha caminhada. Falei sobre a minha família e como foi que eu recebi a notícia da morte do meu pai. Também contei sobre meu tempo em Jocum e sobre o um ano e meio que passei na Bolívia. Encerrei a história explicando que apesar dos pesares é possível recomeçar e o quanto sou grato a Deus pela mãe que eu tenho, que sempre foi o pilar da família.

Ele começou a falar sobre a vida de seu irmão e sobre o tempo em que frequentava a Assembléia de Deus. Nostálgico, disse que alguns deslizes na caminhada podem acarretar em sérias consequências e prejudicar terrivelmente a vida de uma pessoa.

A conversa estava ficando um pouco triste por causa das lembranças. Então resolvemos ir até o pessoal e conversar sobre outros assuntos. Ali, Siqueira conheceu os meus amigos e pôde dar algumas risadas. A Rúbia perguntou se ele tinha família e a resposta veio com um enorme sorriso: 

- Sim, tenho uma mulher maravilhosa e uma linda filha. Ela é alta e tem os cabelos encaracolados igual ao meu.

Minutos depois,  se despediu, desceu a Augusta sentido centro e continuou seu rolê sem destino. A chuva havia maneirado e o Magal estava com fome. Então resolvemos subir a rua e comer um dog para enganar o estômago. Sentado no banquinho e observando a galera que passava, comecei a refletir no que havia acontecido naquela madrugada. O rolê já estava muito bom e a presença do Siqueira ajudou a enriquecer o momento.

Foram minutos de uma conversa decente e sadia, daquelas que poderiam durar horas. Apesar do pouco tempo, aprendi algumas coisas com o camarada. Fui ensinado que é melhor não dizer algo do que mentir. E apesar dos espinhos da vida, é sempre bom relembrar do passado para não cometer os mesmos erros no futuro. Também é essencial recordar dos momentos felizes e alegres em que passamos com pessoas que se tornaram especiais e importantes em nossa caminhada.

Galera... valeu por aquele dia!











quinta-feira, novembro 29, 2012

A chave do martelo



Naquele lugar, famílias esperam a boa nova que preencha o sofrimento causado pelos deslizes. Há expectativa e esperança em alguém que pode restabelecer a harmonia do lar. O Invisível observa atentamente a movimentação dos quartos mais escuros do coração e da mente. Existem sim, aqueles que decidem, mas o fato é que nesse momento, até aquele que não crê, ao olhar para a beleza do céu azulado, fala baixinho: se houver alguém aí, nos ajude de alguma forma.

Mas, não sei. Só sei que é triste. Um acusa e o outro se defende. Um pergunta e o outro escreve. Um está triste e o outro está alegre. São muitas indagações que talvez o autor de Eclesiastes responderia que tudo é vaidade e Jó, sem saber o que dizer, explicaria que antes só o conhecia de ouvir falar.

Quando a brisa do fim da tarde chega ao rosto daquela mãe, uma lágrima cai devagar, e o seu coração torna-se mais apertado. O pai se questiona: onde falhei? A namorada, confiante, lê alguns versículos do livro de Apocalipse para se alimentar.Em algum quarto de uma residência qualquer, um amigo se ajoelha e ora.

A noite chega, a angústia grita, o cachorro do vizinho late, na TV é transmitida uma partida de futebol ou uma novela, o telefone não toca e o sono não vem.

quinta-feira, outubro 04, 2012

Entre a obediência e o bar


Era noite e o calor estava insuportável. Para João, uma cervejinha seria perfeita para matar a sede e refrescar o corpo, que já não aguentava mais aquela temperatura exagerada.

Resolveu sair e fazer um rolê pelo bairro. Vestiu bermuda e camisa regata, despediu-se da sua mãe e desceu o morro rumo ao mercadinho da rua de baixo. Ao virar a esquina, passou na frente do Bar Bagdá, famoso por sediar campeonatos de truco.

Olhou para dentro com a intenção de encontrar algum conhecido que pudesse acompanhá-lo até o seu destino, mas não viu ninguém. Havia alguns malucos tomando cerveja e cachaça. O ambiente parecia um pouco tumultuado. De repente,  um grito veio de dentro: 

- E aí, diow? Encosta aqui pra tomar uma breja comigo.

Ele parou e viu seu amigo Mário vindo em sua direção. O convite mataria a sua sede e cancelaria a sua missão de ir até o mercado. Mas João não gostava de bar, seu pai lhe havia ensinado que esse ambiente não é muito bom, principalmente quando todos estão bêbados, pois qualquer motivo é motivo para brigas.

Apesar do conselho paterno ter surgido em sua mente, ele refletiu:

- Que mal poderá me acontecer? Meu pai que me perdoe, mas eu vou entrar.

Entrou no boteco e sentou-se junto à mesa de seu amigo, que já havia bebido várias cervejas. Conversaram bastante, relembrando situações passadas e também discutiram sobre a última rodada do campeonato nacional de futebol. Também repararam em uma mulher muito atraente sentada à mesa ao lado. Ela vestia uma blusinha amarela e uma saia jeans muito curta, impossível de não notar.

Conversa vai, conversa vem e João começou apresentar sinais de embriaguez, enquanto Mario, já enlouquecido, se descontrolava. A moça da mesa ao lado desfilava pelo estabelecimento a todo o momento, chamando ainda mais a atenção da dupla.

Mário desconfiou que a moça e o dono do bar possuíam um romance, pois escutou um rapaz dizer: “Vá buscar mais goró pra gente! O seu namoradinho faz de graça pra você". Porém, para o amigo de João, isso não era problema. Ele pretendia conquistar de qualquer maneira a menina da sainha curta.

As horas passavam e o Bagdá precisava abaixar as portas. Mário não aguentou e foi xavecar a mina. Ao chegar perto dela, antes de falar qualquer coisa, foi surpreendido por um soco na nuca e saiu correndo para fora do recinto, deixando seu camarada em uma situação complicadíssima.

O dono e mais uns cinco comparsas rodearam o pobre João, que só tinha quinze reais no bolso.

- E aí, safado? Pague a conta e suma daqui pra não levar um sacode - disse um deles.

Extremamente apavorado, João disse só ter alguns trocados, insuficientes para quitar a dívida e que só estava ali a convite do Mário. Também explicou que não falou nada para a moça e implorou a eles para deixá-lo ir embora.

Enfurecidos, não acreditaram na conversa dele e o espancaram. Entre socos, chutes e cadeiradas, a covardia tomou conta do lugar. Ensanguentado e desacordado, o jovem foi jogado na calçada e o bar, fechado. Todos sumiram.

Alguns moradores, ao verem o corpo todo arrebentado, ligaram para o Samu, que chegou rapidamente. João foi levado ao Hospital da Misericórdia, onde foi atendido com urgência, mas não resistiu aos ferimentos e morreu nos braços dos enfermeiros.

Ao receber a notícia, dona Maria, mãe de João, caiu de joelhos e gritou aos céus perguntando a Deus o porquê de uma desgraça como essa ter alcançado o seu lar. Seu marido, "seo" Joaquim, ficou perturbado e não entendeu o que havia passado na mente do seu menino, que era obediente, trabalhador e recentemente havia ingressado na faculdade, onde conseguiu uma bolsa para estudar História.


Infelizmente, João não será um historiador, seu sonho foi interrompido por uma fatalidade. Mário fugiu do bairro, dizem que foi morar em outro estado. Talvez esteja com remorsos e com medo de ser a próxima vítima. A rapaziada do Bagdá continua lá, bebendo e jogando truco. A garota atraente também segue vestindo sua roupinha curta e gerando discórdia por onde passa.

quinta-feira, setembro 20, 2012

Uma paixão


É mais que um time de futebol,
paixão além de qualquer entendimento,
por mais que a vida traga mil preocupações,
são nesses 90 minutos que mais me concentro.

Esse jogo é uma caixinha de surpresa,
onze contra onze, um vacilo é fatal,
a obrigação do meu time é sempre ganhar,
par ou ímpar, clássico e partida normal.

Pela TV eu xingo o narrador,
quase infarto escutando pelo rádio,
chuto a porta e grito enlouquecido pela janela,
quando a bola entra no gol do adversário.

Mas nada se compara em participar do ritual,
busão, metrô, pernil, bilheteria e arquibancada,
cantar e incentivar mesmo com o time perdendo,
com amor e esperança que ele vença de virada.

E na segunda-feira aloprar os rivais,
que não suportam meu time vencendo todo ano,
e na quarta-feira esperar por mais uma rodada,
para gritar gol e olé do meu time Soberano.

domingo, setembro 02, 2012

O abraço da angústia


A noite estava gelada e a neblina branqueava o cenário. Temperatura baixíssima. Frio atormentador. O sino da igreja anunciava a chegada da segunda hora da madrugada enquanto um senhor caminhava sozinho pelas ruas daquela cidade.

Aquele homem não estava sem rumo. Ele buscava seu querido filho, que aos 18 anos resolveu viver nos calabouços escuros das drogas. Para aquele pai era inconcebível perder seu menino para esta praga, portanto, acreditava que uma conversa familiar abriria um leque de novas escolhas e, talvez, seu filho resolvesse enfrentar novas estradas.

Eduardo havia saído de sua casa logo após a janta e como a família já sabia de seus envolvimentos,  a preocupação naquele lar era muito grande. Todos imaginavam o pior. Conflitos por causa de drogas acontecem diariamente e ninguém sabe quem será a bola da vez. Esses pensamentos arrancaram "seo" Antônio da cama e o empurraram para fora de casa.

O palco da madrugada não era muito animador. Algumas ruas encontravam-se desertas, em outras havia cachorros revirando lixos. Às vezes passava algum carro com som alto e gente gritando. Também se deparava com mendigos dormindo e sempre aparecia alguém procurando latinhas.

Ele caminhava com medo de não aguentar o frio. Havia passado por uma perigosa cirurgia no coração e o inverno era um terrível inimigo. Enfrentá-lo assim tão de frente, poderia trazer consequências desfavoráveis para suas pobres veias. Mas a vida de seu garoto era valiosa demais. Viver contemplando a decomposição de seu menino na sombra daquela "lepra", era viver no alto nível da tristeza e caso o coração parasse, morreria como um pai que não abandonou a seu filho.

Percorrendo a sua via-crúcis, lembrou de quando Eduardo nasceu, de como chegou saudável e forte. Também recordou o olhar fascinante que o moleque transmitia em sua infância. Lágrimas caíram quando visualizou em sua mente o sorriso de alegria na hora do "parabéns" de seu aniversário de 10 anos.

"É, as pessoas crescem e perdem a essência", pensou.

Como em toda boa cidade, sempre há um lugar onde os desesperançosos se reúnem para saborear a química da desgraça. E como "seo" Antônio já estava cansado, o Betume seria o último local a ser visitado antes de retornar à sua residência.

O Betume é uma casa amarela, abandonada, onde alguns "amigos" se encontram. Talvez o garoto estivesse por lá. Não queria retornar sem Eduardo. Essa situação só aumentaria a tristeza de dona Maria, sua esposa, que sofria com frequentes ataques de asma e não estava muito bem de saúde.

Abriu o portãozinho e foi até a área dos fundos. Cerca de dez pessoas estavam derretendo suas vidas no cachimbo. Perguntou sobre Du, como era conhecido, mas ninguém soube informar onde ele estava. Cabisbaixo, saiu em direção ao seu bairro.

Dona Maria havia preparado a mesa para a chegada de seus amores e aguardava ansiosa na janela. Ao ver seu marido, subindo o morro sem o seu "filhote", se desesperou.

A porta se abriu. Um abraço de angústia aconteceu. O chá quente ficou sobre a mesa e esfriou. Uma oração foi feita. E o pesadelo continuou.

terça-feira, agosto 14, 2012

12/08/2012 e dia dos pais.

Bom dia pai! Aquela tarde na cabine de telefone da esquina da Seoane com a Cañoto, a mãe me disse que você tinha ido embora. Pow, você foi cedo demais. Mas a vida tem dessas, né? Quero te dizer que a saudade continua. Dificil encontrar alguem igual a você pra eu comentar os livros que terminei de ler, os filmes que acabei de assistir e os jogos quem acabaram de se encerrar. Quando o SPFC faz gol eu já não posso ligar pra você e comemorar. Mas, obrigado por todos os ensinamentos e pelo amor que você me deu. Apesar de tantas brigas, foi da hora! Sinto sua falta. Mas, para não passar esse dia especial com lágrimas de tristeza, daqui a pouco estou indo pro Morumbi, aquele mesmo estádio que você me ensinou o caminho, pra comemorar o seu dia e o meu aniversário. Feliz dia dos pais!

quinta-feira, julho 12, 2012

Bastidores de uma partida

Domingo é dia de descanso, mas quando o São Paulo joga é difícil descansar. Ainda mais quando sobra uma graninha, aí o jeito é pegar o "busão" e ir para o Estádio!
Nesse último domingo (17/06/12) foi assim. O São Paulo ia receber o Atlético-MG no Morumbi. Começo de campeonato, jogo sem muitos holofotes. Mas, não tem problema, assim que é bom e contra o galo é melhor ainda.
Sempre que o São Paulo joga contra esse time de Minas Gerais, eu me lembro do Brasileirão de 1996, quando eu, meu pai, o Dodô e o Galvão fomos até Belo Horizonte e, infelizmente, passamos um dia de guerra ao redor do Mineirão.
Não gosto de lembrar esse dia. Foi uma situação tão extrema, que até hoje está gravada na memória.
Mas estamos em 2012, então, além de a partida contar com craques como Luis Fabiano e Ronaldinho Gaúcho, a diretoria do Tricolor resolveu homenagear os jogadores que conquistaram a nossa primeira Taça Libertadores da América. Era uma tarde que tinha que ser coroada com uma vitória do São Paulo.
Bom, acordei umas dez horas da manhã com a voz da minha mãe. Ela estava perguntando pro Fom que horas iríamos sair, se tomaríamos café, se ia dar tempo de almoçar. Também disse para tomarmos cuidado no caminho por que haveria outros jogos no mesmo horário, portanto, deveríamos estar atentos com as outras torcidas.
Conselhos de mãe são profecias. É bom atentar para quem sabe o que está falando.Colocamos as blusas na mochila e descemos até o ponto para esperar o "busão", que não tardou. A Dutra estava tranquila e, como eu não havia almoçado, não via a hora de chegar na Armênia e comer um pastel de carne na feira. O motorista corria bem e quando estávamos em Guarulhos, passamos por alguns ônibus da torcida do Atlético que acabavam de chegar da Fernão Dias e esperavam a escolta policial.
Olhei os ônibus parados e os "maluco" xingando os motoristas que passavam. Comecei a pensar, sobre as brigas de torcidas e sobre a disposição que alguns torcedores têm em se doar e lutar por um objetivo.
Talvez para o Sistema, é melhor acontecer conflitos entre torcidas do que uma revolta contra o Governo. Os poderosos sabem jogar, eles não são burros. Mas enfim, eu não ia brigar e estava com fome, portanto, um pastel de carne e um caldo de cana, por favor!
Depois de comer, continuamos o trajeto. Metrô, ônibus e mais vinte minutos de caminhada até o Morumbi. O clima estava tranquilo ao redor do estádio, ao contrário do meu estômago que continuava reclamando. Resolvi comer um pernil. Mas existia um grande problema. O "Rapa" estava caçando os vendedores e eu não conseguia encontrar nenhum carro que estivesse vendendo sanduiche. Até que apareceu uma senhorinha avisando que mais à frente havia uma "lanchonete muquiada". O Fom pediu dois pernis e duas cocas. Sentamos na calçada e partimos para a segunda parte do nosso almoço.
Enquanto estávamos lá no carro do lanche, chegou um pai com seu filho. Os dois com a camisa do São Paulo. O menino deveria ter uns dez anos e estava eufórico. Pediram  dois “dogs” e se juntaram a nós. Fiquei observando os dois, lembrei de quando meu pai me levava para todo canto para ver o Tricolor jogar, a mente foi longe.
Novamente me perguntei se seria possível, algum dia, existir torcedores conscientes de toda a máfia que envolve o futebol moderno. Imaginei que sim, a geração do menino poderia pensar diferente e lutar por algo nobre.
Enquanto eu refletia sobre o futuro do mundo, o filho, todo contente, se levantou e começou a chutar seu pai, mas na brincadeira. O pai, com um olhar de indignação e pronto para ensinar os famosos bons modos para seu filho, disse: Moleque, para de chutar o pai. Vai até aquela árvore, imagina que é um corinthiano e comece a chutar até você se cansar.
O Fom me olhou, nos levantamos, pagamos a senhora, subimos a rampa da entrada e fomos ver o São Paulo ganhar de 1 a 0 do Atlético.

sábado, julho 07, 2012

Era possível

Aquela mente possuía ideias extraordinárias.

Havia algo distinto, uma percepção mais aguçada, talvez.

Sonhava.

Imaginava que a desbotada parede branca do quarto poderia ser transformada em uma parede de ares esperançosos.

Sabia, claramente, que os móveis da sala clamavam por modificações, pois aquela mesma arrumação trazia más lembranças.

Sorria quando entendia que, ao ler poesias, luzes chegariam aos seus olhos.

Compreendia que o caminhar, ainda que seja em passos lentos, liberta da mesmice.

Também percebia que os copos novos que moravam no armário da cozinha e que esperavam uma data importante para serem usados,  lamentavam o desperdício de estarem mofando no quotidiano especial.

Mas, apesar de enxergar magnificamente e ansiar por dias melhores, havia um inquilino em sua alma que não permitia tais mudanças...

o medo!




domingo, junho 24, 2012

O contra-ataque

Era dia de clássico. A rivalidade entre os dois times ultrapassava as quatro linhas do gramado e estendia-se até as arquibancadas e bairros da cidade. Durante a semana, os meios de comunicação colocaram essa partida como o evento mais importante do país. Deixaram de denunciar a corrupção nacional e o descaso da saúde pública para alienar a população com o futebol, que, diga-se de passagem, é a paixão nacional.

Na véspera do confronto  houve muita provocação entre os dirigentes dos dois clubes. Talvez fosse uma estratégia para deixar o clássico com clima de batalha e assim, incentivar os torcedores a comparecerem ao estádio.

Os jogadores pediam aos torcedores que lotassem todos os espaços daquele grande templo do futebol. Alguns telejornais entrevistaram torcedores nas ruas para mostrar como estavam seus corações em relação ao grande duelo.

Muitas estratégias foram usadas para fazer deste clássico, assunto principal no meio da sociedade.

Finalmente, o dia chegou. Grande contingente policial nas imediações do estádio. A imprensa estava frenética. Todos estavam ansiosos para saber quem ganharia esse importante duelo.

Na sede das torcidas organizadas de ambos os clubes, torcedores eufóricos ao som da bateria, cantavam gritos de guerra e se preparavam para sair rumo às arquibancadas.

Chegada a hora, guardaram as bandeiras e os instrumentos, entraram nos ônibus e saíram.

Eram milhares de torcedores. Estavam dispostos a guerrear. Não demonstravam medo. Portavam-se como guerreiros.

Os cidadãos que caminhavam pela calçada se espantavam com os gritos enlouquecidos que vinham das janelas dos ônibus. Algumas pessoas até entravam em estabelecimentos para se proteger de um eventual conflito.

Mas, apesar do clima que envolvia aquele domingo, a caravana não seguiu o caminho que levava ao estádio. Pelo contrário, seguiu em direção ao centro da cidade onde acontecia um protesto contra alguns políticos que desviaram dinheiro público.

De repente, as torcidas rivais se encontraram na última avenida que levava até à manifestação. Todos desceram dos ônibus e, ao som da bateria e com as bandeiras levantadas, marcharam até a multidão.

Pediam justiça e diziam que estavam cansados de ver o "circo" que é a política brasileira. Alguns, mais enfurecidos, comentavam que havia chegado a hora de combater com as próprias forças esse "câncer" que dominou o governo nacional.

Um pouco longe dali, no estádio, ninguém entendia o que estava acontecendo. Os repórteres e dirigentes dos clubes se perguntavam o porquê do estádio estar vazio. Na verdade, no íntimo de cada um, havia medo. Medo do brasileiro se libertar da alienação do futebol e resolver lutar pelos seus direitos constitucionais.

sexta-feira, junho 22, 2012

Engano interior

Ela mora num quarto escuro e abafado, de paredes brancas, cobertas de mofo.

De dia, prefere não conhecer o sol e à noite,  não deseja contemplar as estrelas.

Escolheu não enxergar. Rejeitou a luz. Ansiou por tudo que é desprovido de serventia.

Amou a inutilidade.

Tornou-se o oposto da novidade. Contentou-se com seu velho colchão, precioso companheiro que lhe fornece conforto.

Não recebe visita de amigos. A frequência de vida que leva, não lhe permite desenvolver laços afetivos. Seus relacionamentos são utilitaristas. Amizades verdadeiras, segundo ela, dão muito trabalho.

A janela do seu quarto virou morada de cupins. Mas não se importa. Sente prazer em abandoná-la.

A liberdade mora do lado de fora. Mas não quer ser livre. Isso exige muita responsabilidade.

Odeia a luz. Não quer enxergar o simples. Não quer ser governanta do que é útil.

Tem medo da janela.

Não é obrigada a sair do seu querido esconderijo. Conhecer o ambiente externo, certamente, causará rachaduras em suas máscaras. Não quer perdê-las.

Prefere as lágrimas forçadas e os sorrisos de desespero.






sexta-feira, junho 01, 2012

Rotina da dor

Moisés tinha o hábito de chegar "chapado" em sua casa. Era um "sem-limites", viciado em algumas "substâncias" destrutivas.

Certa ocasião, em uma madrugada de domingo, chegou "muito loco" em sua residência. Como de costume, sempre que chegava nesse estado, entrava no "sapatinho".

Abriu o portão, desceu pela escada, bateu à porta e chamou sua mãe. A senhora não despertou, estava desfrutando do único dia que poderia acordar um pouco mais tarde.

Ele, pensativo, caminhou até o muro e encostou-se. Colocou a mão no bolso, pegou sua carteira e descobriu que a chave da porta estava ali, bem escondida.

Sorriu. Pegou a chave e, com a sutileza de um alfaiate que coloca a linha na agulha, tentou encaixá-la na fechadura. Mas, como a sua visão não estava além do alcance, não conseguiu completar a missão.

Confuso, apoiou-se no tanque de lavar roupa que ficava ao lado da porta e tomado pela ânsia, vomitou.

A paciência se foi e com um pouco de raiva, "enfiou" o pé na porta, resolvendo a situação de uma vez.

Houve um barulho, mas sua mãe, bela como era, permaneceu adormecida.

O garoto entrou, se deu conta que a mãe não havia acordado, foi até o seu quarto, tirou a camisa e atirou-se na cama. "Desmaiou", de tênis e calça jeans.

Ao amanhecer, sua mãe, ainda sonolenta, espantou-se ao entrar na cozinha. Viu a porta quebrada e foi verificar se seu filho encontrava-se no lar.

Com olhos de decepção, daqueles que só as mães possuem, sentiu um aperto no coração ao ver seu filho "apagado" como um cadáver e imundo como um porco no chiqueiro. O quarto fedia podridão.

Extremamente entristecida, voltou para a cozinha, preparou o café, sentou-se à mesa e, sozinha, ao som do tic-tac do relógio da parede, tomou a primeira refeição do dia.






domingo, maio 27, 2012

O menino e a laje


Nas ruas, no pasto e nas lajes. Rostos apreensivos, alegres e tristes. Gritaria. Xingamentos. Alopração. Diversidades de cores e tamanhos. O céu ficava "forrado" de pipas. A cada "rélo", correria! Essa era a realidade do bairro do Lanifício quando o vento resolvia soprar mais forte

A "mulecada" sempre estava envolvida nas batalhas aéreas. Alguns compravam a pipa, outros faziam e outros esperavam alguma cair do céu. Sexta-feira à noite era dia de preparar o arsenal. E aquele fim de semana foi diferente, pelo menos para Eduardo, o Dudu, como era conhecido.

A energia tinha acabado e o bairro estava em silêncio. Mas,  em um dos quartos da casa 899 da rua Castro Alves, havia uma movimentação diferente. Em meio a bagunça de linha, folha de seda, cola,  bambu, vareta e pó de vidro, estava Dudu,  sentado numa cadeira, ao lado do guarda roupa, iluminado por cinco velas. Um radinho de pilha em cima da cama, sintonizado na 105.1, Espaço Rap, fazia a trilha sonora da noite.

"É época de pipa, o céu tá cheio, 15 anos atrás eu tava ali no meio. Lembrei de quando era pequeno, eu e os cara... faz tempo, e o tempo não pára", os Racionais cantavam no radinho enquanto Dudu fazia as varetas e colava as folhas.

O frio estava começando a congelar a noite e dona Marina, mãe de Dudu, bateu à porta e falou:

- Filho, está na hora de dormir, apague essas velas e amanhã você termina de fazer as pipas. Ah, se cobre bem porque está frio.

Obediente, ele fez o que a mãe ordenou.

Quando o galo cantou, o menino viciado em pipa já estava de pé. Sentou - se à mesa e tomou um café da manhã reforçado. Sua mãe havia preparado café, leite com chocolate, pão com manteiga e queijo. Comeu, vestiu seu chinelinho "havaiana system" que tanto gostava e foi até a casa do Tidão.

Como não teve tempo de terminar de fazer tudo que precisava, Eduardo tinha um grande problema. As pipas já estavam prontas mas faltavam  fazer as rabiolas e o cortante. E como sempre, o Tidão teria alguma ideia pra resolver esse "b.o".

Tidão ainda dormia quando foi chamado. Saiu só de bermuda, com cara de sono e escutou o que Dudu tinha a dizer. Depois de entender a situação, respondeu:

- Mano, minha mãe vai sair daqui a pouco e vai demorar pra voltar. Vamos aproveitar e fazer o cortante no fogão de casa e pegar as sacolinhas de lixo que ela guarda atrás da porta, assim podemos fazer as rabiolas.

Feito. Dona Irani saiu e os "ratos" invadiram a cozinha.

Fizeram a maior "zona". Enquanto o cortante fervia, fitinhas de plástico iam sendo amarradas em pedaços de linha. Fizeram tudo em uma hora. Limparam e foram até a rua de baixo para terminar o ritual.

Esticaram as linhas entre os postes, passaram o cortante com cuidado pra ficar fininho e esperaram secar.

Já era quase meio dia e a barriga dos dois começou a roncar. Resolveram subir o morro para almoçar. Foram até a cozinha de dona Irani, que nem percebeu que seu fogão tinha sido utilizado para outros fins. O cheiro estava ótimo. Ela havia preparado arroz, feijão, bife, omelete e salada. Ficaram por ali mesmo.

Sentaram - se à mesa e antes de colocar a comida no prato, uma Coca-Cola gelada foi aberta. Comeram bem e tomaram todo o refrigerante. Depois voltaram para a rua, sem esperar a comida "baixar".

Havia apenas duas pipas no céu, a maioria da "mulecada" deveria estar almoçando. Enquanto não começava a guerra, sentaram-se na calçada e ficaram conversando.

- Mano, hoje vou empinar de cima da laje de casa. Ali é perfeito, disse Dudu.

- Podi crê, mano! Eu vou ficar aqui na rua mesmo. Hoje a gente faz a festa, respondeu Tidão.

As pipas começaram a aparecer e eles foram buscar suas pipas e linhas.

Um na laje e outro na rua, eram os dois contra todos.

Tidão já tinha cortado duas e Dudu,  perdido uma. Mas estavam se divertindo. O dia estava muito agradável.

De repente,  uma pipa vermelha veio do morro de cima e entrou na linha de Eduardo. Ele, surpreendido, começou a enrolar para nao ser cortado "na mão". Tidão olhou para cima e começou a xingar o maluco que estava na maldade, e quando se virou para falar com Eduardo, percebeu que não havia ninguém em cima da laje.

Ele havia se concentrado demais no embate, que para muitos valia a honra, e no meio daquela neurose, caminhou para trás e não percebeu o fim da laje. Eduardo caiu da altura de sete metros e seu braço bateu em um murinho que havia embaixo, cortando seu pulso e quebrando seu braço direito. Tidão, desesperado e quase chorando, começou a gritar e logo apareceu o "seo" Figueroa, pai de Dudu, que ficou em choque quando viu o menino estirado no chão. Dona Irani também saiu na rua, imaginando que pelos gritos de seu filho, algo de muito ruim havia acontecido.

Cheio de sangue na roupa e com o braço "zuado", Eduardo foi levado ao Hospital e, além ganhar um gesso no braço, tomou cinco pontos no pulso. Quando a noite apareceu e tudo estava mais calmo,  Dudu,  deitado em sua cama, olhando para o teto, ficou pensando sobre o drama que havia vivido. Também concluiu que sua família e seu amigo Tidão, foram essenciais naquele momento e nunca mais iria esquecer desse fato.

Foi um susto para todos que ali estavam. Poderia ter acontecido algo pior com o menino do pipa.

Anos se passaram desde esse episódio e a cicatriz no braço direito de Eduardo ainda confirma que aquele tempo  nas ruas do Lanifício foi bem aproveitado, e que é melhor cair da laje do que perder a infância na frente da "tecnologia".








quinta-feira, maio 10, 2012

Felicidade efêmera

Bela,
nasce atrás do monte, em frente a minha janela.
impossível não notá-la,
olhos claros, desenhos na pele,
passo horas a contemplá-la.
momento único, cativante, inspirador,
transforma minha noite escura,
num ambiente cheio de cor.
mas da mesma forma que surge, ela desaparece,
deixando saudade e sonhos,
que nunca acontecem.

quinta-feira, março 08, 2012

Orquestra da noite

Flores sem vida são convocadas a fazer parte daquele espaço vazio e frio, 
onde a lágrima vive e o sonhador não deseja estar;
O choro é convidado a ser a música que quebra o silêncio, e desespera a alma;
Os abraços tentam consolar o inconsolável;
Os olhos fechados e os dedos entrelaçados explicam que a visita que não foi feita, não acontecerá,
E o café que é servido não será compartilhado por aquelas mãos;
O que tinha que ser dito e não foi falado, se perderá como um eco e não será escutado;
Já foi, não voltará;
Os olhos tristes gritam por um pouco de alívio;
Mas não há remédio para aquele que não é indiferente;
A não ser o tempo!

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Naquele tempo


Feriado no domingo não é muito agradável para quem já o tem como dia de folga, mas aquele primeiro de maio de 1994 foi marcante, pelo menos pra nós, aqui do bairro.

Dia do trabalho é sempre uma data cheia de manifestações e reflexões, mas como não estávamos nem aí para nada, e nem tínhamos idade para isso, o jeito foi rachar no futebol.

Logo cedo, às nove horas, tínhamos um jogo-contra na quadra do Lanifício. Estávamos dispostos a jogar com raça para vencer os nossos rivais, a “mulecada” das “casinha”.

A temperatura estava agradável naquela manhã. Quase ninguém na rua, exceto as senhoras que voltavam sorridentes da padaria, segurando suas sacolas com leite e pão.

Eram quase oito e vinte quando o nosso time começou a aparecer e se reunir em frente à casa do Renan. Aos poucos, os “muleques” iam chegando. Enquanto alguns desciam o morro com cara de sono e olhos cheio de remela, outros chegavam animados, entoando nossos gritos de guerra.

O clima era de harmonia. Os que chegavam comendo pão com manteiga e bolacha, repartiam com quem não havia tomado café da manhã. Quem não se alimentasse direito corria o risco de não aguentar o pique do jogo.

O horário da partida se aproximava e, como sempre, o Tidão estava atrasado. Fred e Rodrigo já reclamavam do atraso quando, de repente, nosso zagueiro surgiu no topo da rua. Alguns gritaram “até que enfim” e os outros ficaram observando-o descer o morro de chinelo, bermuda e com uma camisa do Planet Hemp sobre o ombro.

Pronto! Já podíamos ir!

Saímos em direção ao campo. No caminho, íamos chutando a bola e conversando. Eu comentava sobre o clássico que aconteceria às quatro da tarde entre São Paulo e Palmeiras e o Dudu explicava como conseguiu o emprego no Bar do Escobar.

Ao entrar na avenida Nicola Cianflone, que ainda era de terra, os mais ansiosos começaram a jogar pedras nas lâmpadas dos postes, enquanto os mais famintos roubavam goiabas na chácara Paraíso.

O ritual da caminhada acabou quando chegamos na quadra de areia. O time adversário já nos esperava. Entramos, deixamos o chinelo perto do portão, cumprimentamos os caras e decidimos as regras: cinco vira e dez acaba, sem tempo e todos descalços.

O jogo começou “pegado”, os pés descalços dos dois times não estavam nada amigáveis. Jogo duro. Nenhum dos dois times se sentia visitante, portanto, ninguém queria perder em casa. Eu estava no gol, e de longe via os dois times jogando como se joga um Uruguai x Argentina.

Saímos na frente com um gol do Eric, mas logo em seguida eles viraram o jogo. Chutamos duas bolas na trave, chutes certeiros do Fred e do Oreia, mas não teve jeito, a primeira parte terminou cinco a quatro para eles.

Tínhamos quinze minutos de intervalo e durante esse tempo nos revezamos na única torneira que havia disponível, aquela que ficava ao lado do banheiro.

O senhor que cuidava do campo, o famoso “Seo” Geraldo, passou e disse para paramos de tacar água um no outro, que era desperdício e que se não parássemos ele ia mandar todo mundo embora. O Tidão pediu desculpa e fomos para o segundo tempo.

A segunda parte começou em um ritmo devagar. Os primeiros minutos não trouxeram muitas emoções. Estava parecendo um jogo de compadres, bem diferente do primeiro tempo. Os adversários estavam em um ritmo mais lento, mas não estavam mortos e, de repente, no meio daquele marasmo todo, quando percebi, veio uma bomba em minha direção, só tive tempo de esticar a mão e desviá-la por cima do gol.

Era o que precisávamos para acordar e tornar o jogo “brigado” novamente.

Outros gols saíram, houve jogadas bonitas e chutões para o mato. Até que o placar marcou nove a oito a nosso favor, aí o clima ficou tenso e todos se tornaram mais prudentes.

Já estávamos exaustos, mas a vontade de vencer trazia uma força do além. No meio daquela cautela toda, o Renan fez uma linda jogada e chutou forte no canto direito, mas o goleiro dos caras estava atento e agarrou a bola. No contra-ataque, chutaram do meio da quadra, a bola desviou e eles empataram o jogo. Nove a nove. Parecia mentira!

Os ânimos estavam à flor da pele e algumas jogadas violentas voltaram a ocorrer. Sofremos uma falta perto do nosso gol e como era uma falta que não levava perigo ao gol adversário, resolvemos torná-la perigosa. Falamos para o Dudu que ele seria o batedor. Todos nós sabíamos que, com seu famoso “três dedos”, ele tornaria aquela falta perigosíssima.

Dudu fez um montinho de areia, ajeitou a bola, tomou distancia e me disse: “Paga pau nos três dedos do Marcelinho.”

Todos nós olhávamos com grande expectativa. Ansiávamos pelo gol e eles atentavam para não deixar o nosso sonho se realizar.

E lá se foi a bola. Ela saiu como um foguete, fez uma curva espetacular e morreu no ângulo direito do gol adversário. A guerra estava vencida!

Corremos em direção ao nosso salvador e o abraçamos. Nossa alegria estava completa. Vencemos!

Colocamos nossos chinelos e pegamos o caminho de volta para nossas casas, mas antes, paramos no Bar do Toninho e tomamos uma Tubaína.

Meia hora depois cheguei em casa, cansado e faminto. Antes de entrar ao banho, meu pai me contou que o Senna havia sofrido um terrível acidente.

Almocei e, deitado no sofá, enquanto o jogo do Tricolor não começava, fiquei atento às notícias que anunciavam a morte do nosso ídolo da Formula 1.

O São Paulo perdeu. O Senna não aguentou. E a noite chegou, trazendo seu luto.

Que dia!

Sinto saudade desses momentos. Tudo era mais simples e, apesar das dificuldades que cada um passava, tínhamos nossos momentos de felicidade. Hoje em dia, quando nos reunimos, apesar de serem outros tempos, sempre recordamos com nostalgia dos tempos em que a única responsabilidade era vencer o time adversário.