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quinta-feira, setembro 20, 2012

Uma paixão


É mais que um time de futebol,
paixão além de qualquer entendimento,
por mais que a vida traga mil preocupações,
são nesses 90 minutos que mais me concentro.

Esse jogo é uma caixinha de surpresa,
onze contra onze, um vacilo é fatal,
a obrigação do meu time é sempre ganhar,
par ou ímpar, clássico e partida normal.

Pela TV eu xingo o narrador,
quase infarto escutando pelo rádio,
chuto a porta e grito enlouquecido pela janela,
quando a bola entra no gol do adversário.

Mas nada se compara em participar do ritual,
busão, metrô, pernil, bilheteria e arquibancada,
cantar e incentivar mesmo com o time perdendo,
com amor e esperança que ele vença de virada.

E na segunda-feira aloprar os rivais,
que não suportam meu time vencendo todo ano,
e na quarta-feira esperar por mais uma rodada,
para gritar gol e olé do meu time Soberano.

domingo, setembro 02, 2012

O abraço da angústia


A noite estava gelada e a neblina branqueava o cenário. Temperatura baixíssima. Frio atormentador. O sino da igreja anunciava a chegada da segunda hora da madrugada enquanto um senhor caminhava sozinho pelas ruas daquela cidade.

Aquele homem não estava sem rumo. Ele buscava seu querido filho, que aos 18 anos resolveu viver nos calabouços escuros das drogas. Para aquele pai era inconcebível perder seu menino para esta praga, portanto, acreditava que uma conversa familiar abriria um leque de novas escolhas e, talvez, seu filho resolvesse enfrentar novas estradas.

Eduardo havia saído de sua casa logo após a janta e como a família já sabia de seus envolvimentos,  a preocupação naquele lar era muito grande. Todos imaginavam o pior. Conflitos por causa de drogas acontecem diariamente e ninguém sabe quem será a bola da vez. Esses pensamentos arrancaram "seo" Antônio da cama e o empurraram para fora de casa.

O palco da madrugada não era muito animador. Algumas ruas encontravam-se desertas, em outras havia cachorros revirando lixos. Às vezes passava algum carro com som alto e gente gritando. Também se deparava com mendigos dormindo e sempre aparecia alguém procurando latinhas.

Ele caminhava com medo de não aguentar o frio. Havia passado por uma perigosa cirurgia no coração e o inverno era um terrível inimigo. Enfrentá-lo assim tão de frente, poderia trazer consequências desfavoráveis para suas pobres veias. Mas a vida de seu garoto era valiosa demais. Viver contemplando a decomposição de seu menino na sombra daquela "lepra", era viver no alto nível da tristeza e caso o coração parasse, morreria como um pai que não abandonou a seu filho.

Percorrendo a sua via-crúcis, lembrou de quando Eduardo nasceu, de como chegou saudável e forte. Também recordou o olhar fascinante que o moleque transmitia em sua infância. Lágrimas caíram quando visualizou em sua mente o sorriso de alegria na hora do "parabéns" de seu aniversário de 10 anos.

"É, as pessoas crescem e perdem a essência", pensou.

Como em toda boa cidade, sempre há um lugar onde os desesperançosos se reúnem para saborear a química da desgraça. E como "seo" Antônio já estava cansado, o Betume seria o último local a ser visitado antes de retornar à sua residência.

O Betume é uma casa amarela, abandonada, onde alguns "amigos" se encontram. Talvez o garoto estivesse por lá. Não queria retornar sem Eduardo. Essa situação só aumentaria a tristeza de dona Maria, sua esposa, que sofria com frequentes ataques de asma e não estava muito bem de saúde.

Abriu o portãozinho e foi até a área dos fundos. Cerca de dez pessoas estavam derretendo suas vidas no cachimbo. Perguntou sobre Du, como era conhecido, mas ninguém soube informar onde ele estava. Cabisbaixo, saiu em direção ao seu bairro.

Dona Maria havia preparado a mesa para a chegada de seus amores e aguardava ansiosa na janela. Ao ver seu marido, subindo o morro sem o seu "filhote", se desesperou.

A porta se abriu. Um abraço de angústia aconteceu. O chá quente ficou sobre a mesa e esfriou. Uma oração foi feita. E o pesadelo continuou.