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sexta-feira, junho 28, 2013

Dama da madrugada

Porta trancada, janela com uma fresta aberta e a imprestável programação da TV como trilha sonora de um cenário caótico e perverso. O quarto de paredes brancas mofadas era o mocó daquele jovem, que sem forças de reação, afundava o nariz onde não era chamado.

Todo sábado era assim. Trabalhava até às 22 horas e ficava até uma da manhã vagando pelas ruas sujas daquela cidadezinha. Em seguida, passava na biqueira, comprava pó e caminhava ligeiro para o aconchego do seu lar. A madrugada era uma noiva do mal, que o tirava para dançar a dança vazia da desesperança.

A estante era uma grande amiga. Além de suportar as vozes que saíam da telinha da mentira, também era a mão que estendia a química da escuridão. Entre um tiro e outro, olhos atentos para ver se alguém aparecia. Com medo, não queria ser surpreendido por ninguém, muito menos por seus pais, que dormiam no quarto ao lado.

Pensamentos surgiam e o atormentavam: “Que barulho foi esse? Preciso trabalhar daqui a pouco! Porque estou fazendo isso? Alguém me ajuda!” – triste começo de juventude para um menino que mergulhou na fossa, como um nadador mergulha na grande piscina em busca da medalha de ouro.

O sono desaparecia e só restava a neurose. A vontade de dormir era imensa, porém o efeito não passava. Até o horário de sair para o trabalho, havia tempo suficiente para uma boa reflexão. Aquilo tudo era uma decepção para seus pais, que o criaram de uma forma decente. Também era injusto consigo mesmo, pois trabalhava o mês inteiro e deixava seu salário escorrer pelo ralo.

A depressão o consumia e o sono chegava junto com o nascer do sol. Já era hora de trabalhar. Seu cérebro não havia descansado e sua cabeça doía. “Porque estou fazendo isso?”, perguntava a si mesmo. Tomava um rápido banho e enquanto vestia o uniforme da empresa, assistia à missa que passava na tela. As palavras que entravam por seus ouvidos traziam uma mescla de esperança e desilusão.

Sem tomar café da manhã, desligava o aparelho, saia para a rua e caminhava rumo à labuta em pleno domingo. O ambiente deserto não escondia nenhum oásis para seu coração deprimido.


“Tenho que parar com essa porra...” – sua alma gritava.

segunda-feira, junho 24, 2013

Quinta-feira 13

Quando cheguei às 17h no Vale do Anhangabaú para trombar o Beninha e subir até a Praça Ramos de Azevedo, não imaginaria que aquela noite seria tão tumultuada. Sabia que seria histórica, pois havia uma multidão indignada com o preço da passagem e cansada de viver com as migalhas do pão e com as risadas forçadas do circo. Contudo, o cenário noturno das ruas apertadas do centro reservava algo a mais para todos nós.

Chegamos em frente ao Teatro Municipal e entramos no meio da multidão que cantava “mãos para o alto, 3,20 é um assalto” e outras músicas mais. Ali havia gente de partidos políticos, punks, universitários, torcedores organizados, senhores, senhoras, galera do rap e alguns policiais que ficavam observando de longe, encostados na parede do Shopping Light. Ah, até bandeira do PT tinha no lugar.

Não me lembro muito bem o horário que saímos em direção à rua da Consolação, só sei que quando cheguei por lá percebi que estava em meio a uma emboscada onde o Batalhão de Choque da Polícia Militar resolveu jogar bombas e dar tiros de borracha em todos nós, inclusive em mulheres.

Quando eles se reuniram atrás dos escudos e começaram a descer a lenha, só deu tempo de entrar no meio dos carros que desciam a rua e se proteger atrás dos ônibus. Enquanto alguns motoristas abandonavam seus automóveis e dezenas de manifestantes se ajoelhavam em frente dos armados, muitas pedras eram arremessadas e bombas eram chutadas de volta para os pés dos policiais.

Busão pichado, vidros quebrados, lixeiras pegando fogo e muito gás lacrimogêneo para os pulmões. Apesar da cena de batalha, isso foi só o começo da noite, ainda tinha muita bomba para chover e muita pedra pra ser tacada durante o zig-zag até a Avenida Paulista. Em cada esquina, um corre-corre para a imprensa filmar lá do alto, protegidos em seus helicópteros.

Os repórteres que caminhavam ao nosso lado também levaram seus prejuízos. Foram presenteados com tiros de borracha na cara, bombas e detenções. Eu não vi ninguém sendo preso, fui perceber o tamanho da gravidade somente quando cheguei em casa e entrei na internet.

Logo após o primeiro incidente, encontrei uma parte do grupo que já estava na Rua Augusta e andamos até a esquina que fica antes do Hotel Panamericano. Em frente ao hotel, havia muito escudo e carros que impediam a nossa passagem. Tivemos que mudar o caminho novamente e buscar outro acesso para a Paulista.

Durante o nosso trajeto, muitos olhos curiosos (não, não é não, não é o zoológico) apareciam nas janelas e portas dos edifícios. Olhares de desprezo que não acreditavam que aqueles metros quadrados tão valorizados estavam ganhando um valor a mais, algo que não tinha cheiro de dinheiro e muito menos de ostentação, mas de suor, fumaça e gás lacrimogêneo.

Até que chegamos na Rua da Consolação novamente e fomos encurralados. A cavalaria estava no local e a covardia continuou, somada ao ódio dos outros  policiais, que atacavam sem dó a multidão que estava sentada. Todos se levantaram e começaram a correr em direção à única rua de escape, da qual não me lembro do nome.

Era tanto gás lacrimogêneo que eu não estava respirando direito. Olhava pro Beninha e falava que o barato tinha ficado louco e que eu precisava sair dali. No meio do barulho das bombas, uma garota me escutou falando e voltou para jogar vinagre na manga da minha blusa. Nem me lembro do seu rosto, mas sou eternamente grato pela sua boa ação.

Logo depois, conseguimos correr até a Paulista e de lá veio mais bomba que nos empurrou para fora da avenida. Quando me dei conta, estava na Doutor Arnaldo, em frente ao velório do Cemitério do Araçá. Nesse momento não havia muita gente, aquela multidão tinha se dispersado e em frente ao Metrô Clínicas havia mais polícia jogando bomba na gente.

Começamos a descer correndo o morro do cemitério. Logo nos primeiros passos vi um carro de luxo tentar um strike. O motorista ficou tão desesperado que quase atropelou a galera. Um segundo carro tentou fazer a mesma coisa, mas não teve a mesma sorte e a lataria deve ter sofrido com o impacto dos chutes.

Pensei que o Choque não fosse descer o morro, mas a perseguição seguiu até a Praça Charles Muller. Quando passei em frente ao portão do Tobogã do Estádio da Prefeitura, apesar da tensão, cantei uma música do SPFC para os seguranças que nos olhavam com espanto e continuei correndo.

Enquanto alguns sumiam pelo caminho, eu e o Beninha decidimos descer as escadas da Praça. Mudamos de ideia quando o pessoal, que escutava música em seus carros equipados, começou a fugir em alta velocidade, deixando o local deserto. (A cena dos carros em fuga lembrou Velozes e Furiosos).

Em meio à trilha sonora que nos acompanhava desde o começo da jornada, chegamos até a banca de jornal que fica no pé do morro e paramos os carros, que tiveram a bondade de esperar a gente passar. Como não podíamos descer a Avenida Pacaembu e nem subir de volta pelo outro lado, pois havia viaturas por todas as partes, corremos para a Avenida Arnolfo Azevedo e ficamos uma meia hora parados em um posto de gasolina.

No meio dessa correria, minha mãe me mandou uma mensagem no celular:

“Você já está voltando pra casa?”

Respondi que estava indo para o metrô. Eu nem sabia que a TV estava mostrando os fatos. E vocês sabem que a mídia curte um sensacionalismo. Talvez minha mãe estivesse pensando que o filho dela estava em Bagdá.

Quando o tempo acalmou por ali, subimos por outras ruas e chegamos ao metrô Sumaré. Para nós, o sufoco da noite tinha acabado. Dentro do vagão fiquei pensando o porquê da reação da polícia, se ninguém tinha feito nada. Inclusive presenciamos um acordo entre o pessoal do MPL e um comandante da PM, segundos antes do primeiro disparo.

Difícil descrever aquele dia, escrevi o que lembrei. As imagens ainda estão vivas na memória e a emoção vem à tona sempre que recordo daquelas horas de tensão. Ah, e além do barulho e da irritação, o gás lacrimogêneo me rendeu meia hora de inalação na UPA e alguns remédios, pois descobri que tenho algum tipo de alergia, que a médica não soube me explicar.

terça-feira, junho 11, 2013

Caminho sem atalho

De Kamchatka pra cá, sonhei diariamente com a aurora, que demorou muito para aparecer. Pelo caminho, bastante empatia. No solo de Sierra Maestra, quem pode menos sorri mais. Difícil entender e muito complicado explicar. São vivências que foram guardadas em porta-retratos e lágrimas que caem quando se sabe que é impossível voltar para Thundera.

Proceder de forma equivocada é inevitável. É um absurdo cobrar a perfeição de quem poderá chegar aos 80 anos e não ter aprendido quase nada. Pois muito se aprende nesse planeta, porém o essencial é desaprendido quando se é instruído no secundário. Então, mãos à obra, garoto!

Temi desaparecer mesmo tendo sido encontrado. Não queria o utilitarismo, e o martelo bate maldade no olhar e bastante malícia nos diálogos. Tive que reaprender, encontrar trilhas e construir neurônios resistentes e sagazes. Talvez tenha conseguido e nem me dei conta, ou “se pá”, fui ludibriado e estou achando que está bom.

Mas ainda “tengo los lagos, tengo los ríos, tengo mis dientes pá cuando me sonrío”, e isso evita o consumo de muitas drogas das diversas farmácias da região. Imagina o gasto com remédios, é caro demais, uns dizem que as drogarias são as biqueiras do Estado, mas eu não entendo muito sobre isso.

O legal são as diferenças, contudo, o diferente às vezes é muito parecido. Eu não quero certas coisas, mas não sei o porquê eu desejo coisas que nem preciso. Será que as coisas que eu não preciso trarão algum benefício pra mim? Dizem os comerciais que sim, que eu ficarei mais feliz e bonito, eu acho que isso é mentira.

No caminho até Havana, muitos amigos nasceram. Pessoas que eu nem imaginava conhecer. Alguns gols também foram marcados e a arquibancada sorriu quando eu apareci depois de anos de ausência. Até a ruazinha de lá ficou com ciúme da ruazinha de cá, mas isso é bobagem. Eu gosto das duas.

Ah, Thundera era legal, mas o 3º Mundo também tem seus desafios. E na verdade, é isso que me mantém vivo e reflexivo. Continuo desenhando o caminho, e quando posso, olho para o céu e vejo estrelas, nuvens e um satélite que sobrevive fora do tempo.

domingo, junho 02, 2013

Sem perder a ternura


É o fim da linha, a casa caiu.
E agora, meu parça?
Cadê o coração resistente
de quem não está no poder?
Pense bem, olhe bem,
não acredite, duvide!
Há muita conversa e muito papagaio.
Há muita cegueira e muita prepotência.
Cuidado,
se vacilar, te levarão pra grupo,
e teu choro não comove.
Então é com você, meu camarada!
Sem máscara, sem justificativa,
e sem sobrenome.