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quarta-feira, outubro 01, 2014

Front

No front, nublado
Direcionar é raro
Cobrança é mato
Erros, geram aplausos
Acertos, poucos sorrisos
Memórias confundem
A alma resiste, sonha
O chão é rochoso
O inimigo, sutil
E o conselho, eterno.

terça-feira, julho 29, 2014

Coração de pai

Após anos frequentando o Estádio Nicola Cianflone, onde assisti privilegiadamente inúmeras partidas do meu pai defendendo o gol do time veterano do Lanifício, visitei, em uma noite de quartas de final da Copa Libertadores, uma arquibancada diferente, que eu só deslumbrava pela televisão.

Acostumado à pequena arquibancada do estádio do Lanifício, fiquei impressionado quando o fusquinha do meu pai parou diante do gigante Morumbi. Olhei para cima e li o nome “Cícero Pompeu de Toledo” pela primeira vez, enquanto um helicóptero sobrevoava o palco da decisão. Eu pisava no chão, mas por dentro, voava. Não parecia verdade e só agradecia por estar vivo naquele momento mágico.

O lado de fora era um caos. Acredito que havia mais de 100 mil pessoas ao redor do estádio. E em poucos minutos, São Paulo e Flamengo decidiriam a vaga para a próxima fase. O primeiro jogo, no Maracanã, terminou empatado em 1 a 1, com gols de Palhinha e Nélio, portanto, nada estava definido.

A ansiedade anulava o frio e a vontade de entrar para ver o gramado aquecia meu coração tricolor. Porém, havia um pequeno detalhe: não tínhamos ingresso. Imagina o nível de preocupação do meu pai. Levar o filho pela primeira vez ao Morumbi e não conseguir os bilhetes de entrada. Mas, ele não desistiu. Segurando a minha mão, começou a andar atrás de cambistas.

O São Paulo já havia entrado em campo quando um rapaz apareceu oferecendo dois ingressos para a arquibancada. Meu pai negociou e os comprou. Meus olhos brilhavam. Finalmente eu iria conhecer a casa do meu time do coração e deixaria de ser um “torcedor de sofá” – nada contra “torcedores de sofá”, cada um torce como quer.

As entradas eram para o setor do Flamengo, mas era possível ir até a torcida do São Paulo. Eu vestia uma calça de moletom azul escuro, uma camisa do São Paulo por cima de uma blusa e uma jaqueta jeans. Os flamenguistas me cumprimentavam e também chamavam meu pai de pai. Acho que eles sabiam da luta que ele enfrentou para conseguir o ingresso para nós.

- E aí, pai. E aí, são-paulino. Hoje vocês vão perder! – brincavam os rubro-negros.

Subimos a rampa, o policial nos revistou e caminhamos pelo corredor até a nossa torcida. Quando vi o gramado, a arquibancada e escutei a torcida cantando, meus olhos paralisaram. Meu sonho havia se realizado. Era inexplicável, uma emoção muito diferente da que eu vivia nos degraus do Lanifício.

Assistimos a partida inteira em pé, em frente ao túnel de entrada do portão 16. O jogo foi extraordinário, coroado com dois gols incríveis, um do Muller e outro do Cafu. Também estiveram em campo o goleiro Zetti, Vitor, Ronaldão, Dinho, Raí e outros craques, comandados pelo mestre Telê Santana. O Flamengo tinha Gilmar, Renato Gaúcho e Júnior, mas não aguentou a máquina Tricolor.

Não me lembro do nosso retorno para casa. Acho que na manhã seguinte contei para minha mãe e para todos meus colegas da escola sobre o jogo. Devo ter passado um mês só falando sobre isso. O São Paulo se consagrou Bi-Campeão naquele ano (1992-1993). Que saudade daquele time!

Depois desse dia, nunca mais deixei de ir ao Morumbi. Já se passaram 21 anos e meu coração são-paulino ainda bate forte, cheio de amor e respeito ao São Paulo Futebol Clube. Infelizmente, o coração são-paulino do meu Velho resolveu descansar, e em uma madrugada de inverno, fria como aquela do Morumbi, parou de bombear sangue tricolor em suas veias, me deixando órfão pelas estreitas arquibancadas da vida.



sábado, julho 19, 2014

Intensa despedida

Quatro anos se passaram desde a última vez que pisei nas terras do coração da América do Sul. Lugar interessantíssimo de se conhecer e um mapa da mina de se morar. E para alimentar as lembranças, em uma dessas noites extraordinárias, sonhei que perambulava novamente, atrás do pavio perdido, pelas ruas do centro de Santa Cruz de la Sierra.

Sensação aprazível até então, enquanto meus passos me guiavam para algum lugar que não me recordo. Talvez seguisse o aroma do café da Praça 24 de setembro ou ansiava por um pão de queijo da “7 calles”. Provavelmente uma visita à imigração ou montando o quebra-cabeça de mais um trabalho da faculdade. Impossível descobrir o meu rumo.

O impressionante foi que nenhum conhecido apareceu. Como se sucedeu um dia, assim permaneceu nas rápidas imagens que invadiram meu sono. Aqueles pequenos flashes abrilhantaram minha mente de tal maneira que pude deslumbrar as cativantes ruas estreitas, com seu trânsito encantador, cheio de microônibus e corollas, sujeira e barulho, sorrisos e abatimentos.

Foram poucos minutos de nostalgia até o ápice da estória. Enquanto prosseguia meu destino, algo surgiu como uma bomba em meus pensamentos e me perturbou: “Não sei o que faço aqui de novo, e não me lembro de ter me despedido da minha família”.

A falta do abraço, do tchau e do boa viagem da minha mãe e do meu irmão me fizeram parar no meio daquela desconhecida rua do centro e padecer sentimentos torturadores que berravam em meus ouvidos um cântico de ingratidão e vazio. Parei, olhei para trás, para frente, para o lado, e a imagem mágica que só as despedidas proporcionam não chegaram à minha mente.

Sim, eu havia fracassado no quesito “Despedida Familiar”.

Como já era de se esperar, acordei confuso e assustado. Andei sonolento até a cozinha atrás de um copo com água e no caminho acordei minha mãe e meu irmão. Falei um aliviado boa noite fora de hora e continuei o meu trajeto.

Antes de abrir a porta do meu quarto meu irmão reclamou:

- Tá ficando louco?

- Tô não, mano. Dorme aí. Amanhã te explico – respondi e voltei a dormir.

segunda-feira, maio 26, 2014

Uma Copa no Brasil

A Praça Ramos de Azevedo encontra-se movimentadíssima. Diante da voz emocionada do locutor e das imagens, em alta definição, da enorme TV exposta na vitrine das Casas Bahia, uma multidão se aglomera na calçada para contemplar a primeira partida da Copa do Mundo 2014.

- A bola vai rolar no gramado mais charmoso da zona leste de São Paulo. Apita o árbitro. Começa o maior espetáculo da Terra! – emociona-se o narrador.

Muitos foram dispensados do trabalho, outros nem emprego têm. Contudo, quando se trata do tão esperado campeonato entre seleções, as dificuldades são colocadas de lado, pelo menos por noventa minutos.

Claudinho, sentado em sua bicicleta, possui olhos fixos na telona. Ele pedala diariamente pelas ruas e calçadas do centro, levando mercadorias de um lado para o outro. Mas, o momento merece um descanso, e ali, ao lado de desconhecidos, torce freneticamente para o Brasil vencer.

Ao lado do garoto da bicicleta está Moisés, pastor evangélico, que há poucos minutos discursava eloquentemente sobre o arrependimento de pecados, em plena Ladeira da Memória. Contente, conversa amigavelmente com dona Antônia, a jogadora de búzios e leitora de cartas de tarô mais famosa do Viaduto do Chá. Os dois palpitam sobre o time de Felipão e concluem que faltou Luis Fabiano na lista de convocados.

A cada lance, um grito espontâneo. O mais exaltado, sem dúvida, é o alagoano Sebastião. O cantor e tecladista ganha a vida se apresentando três vezes por semana na famosa calçada do antigo Mappin, que hoje se encontra tomada por telespectadores ansiosos.

- Toca a bola, Neymar. Chuta com força, Fred. Acorda, gandula. Bandeirinha maldito, ladrão! – berra o artista.

Mais ao fundo do aglomerado, em cima de uma caixa de madeira, a estátua viva prateada reclama dos passes errados da zaga brasileira. Também é possível ver um são-paulino e um palmeirense conversando sobre a ausência de jogadores de times paulistas na seleção.

Colado na vitrine, Renan, sentado em sua cadeira de rodas, não larga o celular. Escreve dezenas de comentários valiosíssimos em seu Twitter, opiniões bem mais interessantes que as muitas palavras vazias de alguns ex-jogadores/comentaristas de TV. Ao seu lado, cinco crianças moradoras da Praça da Sé, confusas, não sabem se prestam atenção no jogo ou na rapidez em que Renan digita suas mensagens.

- Mano, essa Copa é nossa – grita um office-boy.

Alguns senegaleses, vendedores de relógios da Rua 24 de maio, estão impressionados com o fanatismo dos brasileiros. Sorriem com cada grito entoado após uma boa jogada. Também há bolivianos, chilenos e colombianos. Argentinos não se encontram.

Ao longe, policiais militares e guardas civis metropolitanos observam atentamente cada movimento. Seguranças particulares do Shopping Light cruzam os braços e oferecem expressões de poucos amigos aos torcedores.

Em frente a um prédio da Rua Barão de Itapetininga, ativistas políticos, com punho pra cima, protestam contra o evento da FIFA. Nas escadarias do Teatro Municipal, meia dúzia de cidadãos adormecem embriagados, sem forças de reação e sem esperança na seleção.

O intervalo chega e os presentes aproveitam os bares abertos para irem ao banheiro. Outros acendem um cigarro. Os mais espertos não saem do lugar para não perderem seus espaços privilegiados.

O jogo recomeça. A euforia renasce. O duelo continua difícil dentro de campo. A câmera do famoso canal de TV, foca na arquibancada e mostra pessoas abraçadas, com rostos pintados de verde e amarelo, felizes por serem testemunhas da abertura da Copa. No centro, a realidade é outra. A alegria de quem parou em frente à loja se encerrará em alguns minutos. Cada um tomará seu rumo e continuará sua lida.

A diversidade cultural da arquibancada da Arena moderna será capa de jornal em todo o mundo, e a diversidade cultural da Praça Ramos de Azevedo continuará o seu ritmo por longa data. Sem muito glamour.

Falta pouco para o final do jogo. A calçada continua lotada. Alguns olham para o relógio e para o céu, pois as nuvens estão escuras e carregadas. Alguém grita: Olha a capa de chuva, olha a capa de chuva.

Começa a garoar. Na tela, o gol não sai. 

segunda-feira, abril 14, 2014

Tempo de mãe

Mãe, perdão! Fui um tolo, irresponsável. Fala comigo, por favor.

O tempo não volta. Não tem desculpa e nem perdão. Alguns poucos conseguem prever o fim e se resolvem antes do último adeus, porém eu não tive a mesma sorte.

Minhas mãos quentes tentam acalentar as mãos frias de minha mãe. Cada palavra que falo é um clamor aos seus ouvidos adormecidos. As lágrimas que caem do meu olhar arrependido não têm mais o poder de gerar um abraço. O choro e o silêncio dançam ao meu redor, em ritmo de final infeliz.

Talvez houvesse dado tempo, se ao invés de tratar com indiferença eu agradecesse e estivesse atento para ajudar no que fosse necessário. Quantos “eu te amo” deixei de dizer? Quantos “ah, cala boca, para de me encher o saco” saiu de minha boca, sem imaginar quanta dor geraria no coração de minha mãe?

Agora é tarde, ela não me ouve. Não pode me perdoar. Pensei que o fim tardaria, acreditei que teria tempo para tratá-la como ela sempre deveria ser tratada: como mãe, mulher, amiga.

Lágrimas, remorso, arrependimento, culpa e uma imensa vontade de rasgar meu coração e detalhar cada atitude equivocada que tive. Ela está pálida, imóvel, quieta. Deitada como alguém que trabalhou bastante e agora descansa. Já não existe reconciliação.

Esquecer seu aniversário era algo normal. Nunca liguei para o dia das mães, exceto no primário, quando era obrigatório criar uma lembrancinha e cantar uma musica pra ela. Eu até gostava, mas um dia eu cresci e aprendi a correr atrás do vento. Daqui pra frente, todo dia vai ser um dia das mães para mim, pois o que era fácil de esquecer, tornou-se impossível não lembrar.

Fixo meu olhar em seu rosto. Minha linda mãe agora dorme. Aliás, nunca prestei atenção antes, nem me recordo de tê-la visto em um profundo sono. Como fui negligente. Tirei nota 10 na arte da desobediência quando era adolescente e me formei no curso da intolerância e da indiferença quando adulto. Minha mãe não merecia tanta ingratidão.

O tempo passou, acabou. Lembro-me do café da tarde que rejeitei tomar ao seu lado. Alguém me arrasta para trás e, lentamente, uma tampa de madeira impede meu último olhar. Um amigo vem e me abraça, mas não há consolo. É tarde demais para nós.

quinta-feira, março 13, 2014

Psicose noturna

Qualquer barulho que chega aos meus ouvidos possui o talento de roubar o meu sono. Impossível permanecer de olhos fechados perante aos ruídos desconhecidos que cruzam o silêncio noturno. Será que o meu quintal será o próximo?

Já invadiram a casa dos vizinhos. Um dia eles voltarão na calada da noite e não perdoarão meu cachorro, nem o varal. E se no dia não houver roupas no varal? Arrombarão a porta ou a janela? Talvez não, bem provável que desistam. Certamente, planejarão o retorno.

Para eles o limite não existe. Sentem prazer antes, durante e depois. Tudo é válido e o futuro é agora. Sou alvo, sou inimigo, sou meta. As madrugadas são enigmas e os grilos já não ousam celebrar as estrelas. A severa atenção é um desabafo silencioso.

Cadê meu pai? Onde estão os que vagam? Devo orar? Estou sozinho e só tenho uma lanterna. Conseguirei me defender e garantir a tranquilidade do lar? Meu cachorro dorme em profunda paz. Eu não, eu estou atento com uma lanterna apagada na mão.

Não confio. Eles pularão o muro a qualquer momento. Sou sentinela, não pregarei os olhos. Que venham. Minha lanterna está carregada e meu cachorro já descansa na sala. A fresta da janela é minha aliada e meu algoz não espera o contra-ataque.

Danço valsa com a insônia enquanto aguardo ansiosamente os primeiros raios de claridade. Somente eles me trarão segurança e me presentearão com sonhos que jamais recordarei.