Páginas

segunda-feira, julho 09, 2018

Escassez de vínculos

Cheguei. Nem sei onde e nem como. Percebo que não tem mais ninguém do início aqui perto de mim... ninguém. Sempre havia pelo menos um, hoje não há nem resquício. Onde foram parar? Ou fui eu que, talvez, parei longe? Apesar de já ter estado mais longe em tempos de aventureiro. Aliás, um pouco de aventura serve para manter a adrenalina no corpo, senão de que adianta tudo isso?
Adaptação, reinvenção e superação caminham lado a lado com a frustração, solidão e dúvidas. E para não perder a raiz, busco sentimentos em músicas, livros, filmes e até em séries. Mudei, evolui e espero continuar crescendo, porém não quero nunca perder o ritmo e a paixão que aprendi e senti na ladeira onde cresci.
Quando a mente acalma, longe da ansiedade do trabalho, estudo e redes sociais, eu consigo voltar no tempo e apreciar cada vitória e derrota, cada lágrima e sorriso. Quantas mãos me ajudaram a levantar? Várias. Não é dívida, mas não desistir é uma maneira que encontrei para honrar cada apoio e fortalecimento que recebi quando achei que a tempestade não ia nunca mais passar.
Fazem muita falta. Como é triste não poder comemorar uma conquista com os meus. Já perdi bastante na vida, sei que vou perder outras vezes, mas quando venço, a alegria é tanta que não cabe no peito. Aí, esta explosão quer abraçar quem sempre esteve junto, só que meus braços ficam vazios porque estou aqui, longe. É tanto abraço acumulado que espero quitar antes que seja tarde.
A distância ensina o que a proximidade não consegue. Tem seu lado bom e seu lado ruim. Como dizem por aí, cada escolha é uma renúncia. Na verdade, o barato é louco. Sentir estas emoções me ajudam a valorizar cada companhia que, neste momento da vida, não tenho mais. O bom é saber que ainda é possível resolver a maioria dessas lamentações; difícil, de verdade, vai ser quando a saudade não for mais uma opção.

segunda-feira, abril 09, 2018

A justiça que tarda


Indignada, assim se sentia a pequena barata chamada Fera. Bastante implicante e preconceituosa, não se misturava com seu povo. Sentia-se superior e mais inteligente do que toda sua espécie. Carregava algumas angústias no peito, porém as maquiava com arrogância e altivez. Morava em um cano sujo e fedido do prédio abandonado da rua Pedro Cabral, onde também viviam milhares de baratas, de todos os tipos. Era possível encontrar dentre elas, as que eram especialistas em voo e corrida, as aleijadas, que perderam algum membro durante a vida, as bebezinhas, as trabalhadoras, as bagunceiras, etc.

Na “cidade” daquelas baratas havia escolas, hospitais e áreas de lazer. Elas tentavam viver em sociedade, mas se deparavam com algumas barreiras sociais. No cano perto do telhado moravam alguns médicos-barata, que tratavam a saúde de seus conterrâneos e cobravam restos de comida como pagamento. Quem pudesse pagar, sobrevivia, quem não pudesse, agonizava até a morte. Como as baratas sofriam diversos tipos de acidentes, os médicos-barata enriqueceram e controlaram toda a comunidade. A educação era selecionada e sabotada. Somente os filhos dos doutores recebiam aulas de qualidade, enquanto o restante da população-barata nem sabia diferenciar um veneno de um resto de comida.

Perto da calha, por onde escorriam as águas da chuva, foi construído um pequeno local de lazer, com escorregador, balanços, banquinhos e jardins. Longe dali, fora dos canos, havia um local enorme, com quartos, banheiros, salas e cozinha. Cômodos imundos e atrativos para as baratas. O que não faltava era lugar para passear e passar o tempo. O entretenimento era uma forma da comunidade se desligar da realidade, mas também era uma forma que a elite utilizava para controlar a mente da massa.

Fera, a barata que se julgava esperta, não possuía uma amizade leal com seu grupo, pois pensava que eles não eram merecedores de viver em um prédio daquele tamanho sem pagar nada. Apesar de nem mesmo ela pagar alguma taxa ao proprietário, sua insensatez a perturbava. Acreditava que um dia o deus-barata enviaria uma praga para limpar aquele lugar, matando e expulsando todas as baratas, menos ela e a meia dúzia de médicos-barata, que possuíam muitos bens e viviam na melhor parte dos encanamentos.

O engraçado era que Fera frequentava os mesmos locais que os outros, menos o hospital. Os doutores não aceitavam a amizade de quem não possuía um cargo igual aos deles. Fera, então, era rejeitada pela elite e rejeitava os seus iguais. Diversas vezes, para sentir o gosto de estar perto dos doutores, fingia um mal-estar e procurava uma consulta médica. Porém nunca caiu na graça da "realeza".
Incomodada com a vida que levava, passava horas olhando pela janela, sonhando e pedindo ao deus-barata que enviasse veneno, mas muito veneno, para destruir aquele local. Claro que o deus-barata precisaria avisá-la antes, assim poderia contar aos médicos e fugir para outro lugar, deixando o resto da população barata morrer de forma trágica.

Certo dia, algumas pessoas apareceram no prédio. Um vendedor mostrava cada cômodo para seus futuros inquilinos. Fera acompanhava de longe o movimento e logo após a saída do pessoal, foi orar agradecendo a intervenção divina, que finalmente escutou sua suposta prece. O dia do juízo final estava próximo.

Uma semana depois, numa manhã, antes do sol nascer, um caminhão parou em frente ao prédio e cinco pessoas entraram no local com mochilas tipo os caça-fantasmas, porém cheias de veneno. Fera dormia um sono pesado e não percebeu a chegada da equipe de humanos. Quando se deu conta, o cheiro de veneno já havia entrado pelo encanamento.

Acordou desesperada e começou a subir até o teto, onde o hospital funcionava. Seu desejo era avisar os médicos e fugir com eles para outro lugar, pois queria ser um deles e viver as vantagens de ser um membro da elite, mesmo que fosse para servi-los. Contudo, demorou a chegar até o telhado, pois havia muito tumulto no cano. Todas as outras baratas tentavam se salvar do gás venenoso, sem sucesso nenhum. Milhares delas corriam para cima e para baixo, sem achar a saída. Já estavam tontas e não raciocinavam direito. O encanamento virou um caos de baratas.

Após muita tentativa, Fera chegou ao hospital. Bem debilitada e sem conseguir respirar direito, encontrou o local vazio. Os médicos e seus familiares já haviam fugido. Desesperada, chorou amargamente. E sem forças para voar para fora do prédio, sabia que seu fim havia chegado. O apocalipse que ela tanto desejou a surpreendeu com requintes de crueldade. Antes do último suspiro, com muito rancor no coração, a pequena barata agradeceu e comemorou a vitória do veneno.