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domingo, dezembro 30, 2012

Take you back



O dia 23 de dezembro de 1999 havia chegado e para comemorar o instável ano vivido, resolvemos ir até o Bar do Noel parar trocar uma ideia e beber alguma coisa. Clima agradável e nenhum sinal de chuva. Céu azul cheio de nuvens, cinco e meia da tarde e vento suave pra refrescar.

O convite partiu do Dudu, que trabalhava no Bar do Escobar e naquele dia havia recebido 100 reais de presente de um cliente. Então eu e o Tidão sabíamos que o nosso amigo estava encarregado de pagar tudo que seria consumido. Lembrei-me que havia parado de beber na semana passada, após ter dormido, bem louco, na varanda da minha casa. Mas, aceitei o convite e disse a mim mesmo que seria a última vez que levantaria um copo de álcool.

Descemos o morro e, na metade da ladeira, pedi para que esperassem alguns minutos. Entrei em casa, coloquei o Rider nos pés, vesti uma regata do São Paulo, e saí rumo ao famoso bote da esquina da Castro Alves. Chegando lá, o Fubá e o Noel preparavam um churrasco na calçada. Os olhos do Dudu brilharam e após um sorriso, comentou:

- Pô mano, demos sorte. 

Eu pedi um bombeirinho e o Tidão preferiu uma maria-mole. O Dudu pegou uma latinha de Skol e encheu a boca da lata de sal e limão.

Havia muito movimento na rua. Carros, motos, ônibus e caminhões passavam em um ritmo frenético. Vários "malucos" que haviam saído do serviço paravam no bar, tomavam uma “breja” e uma cachaça, comiam a carne e iam embora para suas casas.

- Aê Noel, desce uma cerveja pros meninos, é por minha conta - gritou Preto, que estava animado com o clima de Natal que envolvia a todos.

Dentro do bar, o velho rádio tocava moda de viola e deixava o ambiente do jeito que os jogadores de truco gostavam. Já na calçada, a trilha sonora ficava por conta dos automóveis e das vozes que não se cansavam de contar histórias.

Enquanto a escuridão da noite chegava, as luzes dos postes se acendiam e o nosso papo continuava a "milhão". Analisamos os detalhes daquele ano que estava prestes a findar-se. Lembramos das partidas de futebol na quadra da escola do Bairão e dos jogos que acompanhamos nos estádios. Também recordamos dos problemas de nossas famílias, das festas de rap e das "pixações".

- É mano, espero que ano que vem tudo seja diferente. Que as neuroses não nos consumam - comentei.

Também recordamos dos amores vividos naqueles últimos 12 meses. Colecionamos alegrias e decepções, porém, vivemos a dinâmica da vida.

Tidão citou que para o próximo ano deveríamos valorizar mais as nossas famílias. Olhar com mais amor para os nossos pais e respeitá-los. "Talvez, se mudarmos os nossos comportamentos em nossas casas, a vida fique menos pesada e haja mais harmonia em cada lar", explicou exalando esperança.

Família bagunçada sempre foi um problema por aqui. Era só sair na rua para ver que cada sorriso no rosto dos “muleques” era acompanhado pela tristeza enraizada em seus olhares. Contudo, apesar dos pesares, buscávamos um caminho de paz em meio às turbulências da vida.

O papo fluía na mesa quando o sino da Igreja Matriz avisou que havia chegado a vigésima segunda hora do dia e o Noel resolveu encerrar o expediente, acabando com a festa da rapaziada.

- Eu sei que o papo está bom, mas eu tenho família. Vamos acertar a conta porque eu vou fechar o bar - falou o proprietário, com um sorriso no rosto.

Um por um entrou no bote e acertou o que devia. Dudu nos olhou com cara de quem mudou de ideia e perguntou:

- Vocês vão rachar a conta? 

- Jamais. Você nos convidou e prometeu pagar sozinho – respondi.

Com semblante de inocente, ele foi até o balcão e pagou a conta. Eu e o Tidão ajudamos a recolher as cadeiras e as mesas, e o Fubá apagou o fogo, deixando os tijolinhos da churrasqueira na calçada.

Luz apagada, porta de aço fechada, desejos de Feliz Natal à todos e pronto, já era a hora de subir o morro.
Passos lentos para não cansar, subimos felizes por havermos passado aquele tempo retrospectivo. Mas, ainda era cedo para dormir e devido à disposição do momento, decidimos sentar na esquina da casa do Dudu e continuar a conversa.

Apesar das nuvens, a lua apareceu para dar um salve. Não tínhamos uma fogueira igual aquela dos amigos do Rocky Balboa e nem sabíamos cantar como eles, mas abrimos um vinho e ficamos ali durante a madrugada, desfrutando de uma amizade não utilitária e falando qualquer coisa para relaxar a mente.

sexta-feira, dezembro 21, 2012

Diário


O trabalho desafia
O ponteiro cansa o físico
A mãe prepara a refeição
O trabalho exige mais
A fome grita por um pedaço de pão
A água desce gelada
No arroz tem milho e tomate
A ducha aquece
A TV mente
A cama relaxa
O travesseiro condena
O cachorro late
E os sonhos inspiram.

sábado, dezembro 08, 2012

São Paulo 3x1 - 02.12.2012


Pai, fui no Pacaembu e fiquei no lugar onde você me ensinou a ficar. Lembra que eu entrava de graça porque era menor de 12? Entao, hoje com o time reserva, a gente atropelou um timinho aí. Muito obrigado Machadinho. Aqui é o Tricolor do Morumbi. Hoje eu cantei por mim e por você! Te amo! Saudade! 


segunda-feira, dezembro 03, 2012

Vou te falar, hein!


O sol havia cansado de trabalhar e foi descansar. A escuridão chegou e as luzes que ficam no alto dos postes começaram a labuta do turno da noite. A rua encontrava-se movimentada e pessoas de todos os tipos e histórias caminhavam por ela. A rua amava ser aceita por todos.

A garoa e o frio deixavam o cenário mais apropriado para aqueles que não gostam de calor e na esquina da Rua Augusta com a Rua Peixoto Gomide, cerca de dez pessoas dividiam o toldo de algum comércio. Dentre essas dez pessoas estavam o Diegão, a Rúbia, o Magal, a Karol e eu.

Enquanto o Diego contava uma história sobre o tempo em que ele pintava paredes, eu conversava com um são paulino que vendia bebidas em uma caixa de isopor. A ideia estava fluindo e novos assuntos apareciam quando um senhor me pediu uma moeda. Ele vestia uma blusa de lã azul e uma bermuda azul escuro. Na mão esquerda, segurava um copo com vinho  e talvez estivesse há dias sem tomar banho. Entreguei um valor de metal e perguntei seu nome. Cheio de serenidade me respondeu:

- Prazer, me chamo Siqueira!

Eu gosto de conhecer pessoas no rolê. O Leonardo nunca mais foi pra nenhum lugar comigo. Ele me disse que eu quero fazer amizade com todo o mundo e por isso ele prefere ir para onde eu não estou.
Perguntei ao meu novo conhecido de onde ele estava vindo. Sorridente, me respondeu que estava caminhando, sem rumo e que naquele dia iria "chapar o côco" .

Siqueira é santista e me disse que o Ganso é um traidor, que não deveria ter ido para o São Paulo. Não concordei e afirmei que os melhores jogadores sonham em jogar no melhor clube do Brasil.
A chuva ficou mais forte e não tínhamos como nos esconder porque o toldo era pequeno demais. Mas, a rua continuava movimentada. Alguns passavam gritando e outros circulavam em seus carros com um som alto que tocava uma música qualquer, da moda.

A Karol foi até o maluco do isopor e comprou um refrigerante para mim. Tomei um pouco e ofereci ao Siqueira, que aceitou, tomou e devolveu a lata. Entre um gole e outro, perguntei se ele estava na rua porque não tinha opção ou se ele tinha um lar e mesmo assim resolveu abandonar tudo. Ele me olhou e disse: 

- Marquinho, não quero mentir pra você, então não vou responder.

Eu olhei, gostei da ideia e respondi:

- Firmeza, mano.

A chuva continuava forte e o maluquinho da bebida continuava vendendo seus refrigerantes e suas cervejas. O movimento era intenso e o lucro aumentava a cada minuto. Mas, ele tinha uma preocupação, o "rapa" poderia aparecer a qualquer momento, quebrar seu isopor e levar todas as suas latinhas e as suas lindas garrafinhas de Heineken.

Comecei a contar para o Siqueira sobre a minha caminhada. Falei sobre a minha família e como foi que eu recebi a notícia da morte do meu pai. Também contei sobre meu tempo em Jocum e sobre o um ano e meio que passei na Bolívia. Encerrei a história explicando que apesar dos pesares é possível recomeçar e o quanto sou grato a Deus pela mãe que eu tenho, que sempre foi o pilar da família.

Ele começou a falar sobre a vida de seu irmão e sobre o tempo em que frequentava a Assembléia de Deus. Nostálgico, disse que alguns deslizes na caminhada podem acarretar em sérias consequências e prejudicar terrivelmente a vida de uma pessoa.

A conversa estava ficando um pouco triste por causa das lembranças. Então resolvemos ir até o pessoal e conversar sobre outros assuntos. Ali, Siqueira conheceu os meus amigos e pôde dar algumas risadas. A Rúbia perguntou se ele tinha família e a resposta veio com um enorme sorriso: 

- Sim, tenho uma mulher maravilhosa e uma linda filha. Ela é alta e tem os cabelos encaracolados igual ao meu.

Minutos depois,  se despediu, desceu a Augusta sentido centro e continuou seu rolê sem destino. A chuva havia maneirado e o Magal estava com fome. Então resolvemos subir a rua e comer um dog para enganar o estômago. Sentado no banquinho e observando a galera que passava, comecei a refletir no que havia acontecido naquela madrugada. O rolê já estava muito bom e a presença do Siqueira ajudou a enriquecer o momento.

Foram minutos de uma conversa decente e sadia, daquelas que poderiam durar horas. Apesar do pouco tempo, aprendi algumas coisas com o camarada. Fui ensinado que é melhor não dizer algo do que mentir. E apesar dos espinhos da vida, é sempre bom relembrar do passado para não cometer os mesmos erros no futuro. Também é essencial recordar dos momentos felizes e alegres em que passamos com pessoas que se tornaram especiais e importantes em nossa caminhada.

Galera... valeu por aquele dia!