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segunda-feira, julho 20, 2015

O filho caçula

Cheguei pequenininho, tinha apenas dois meses. Não compreendia direito o que acontecia no momento, somente olhava curioso toda a movimentação. Fui entregue a outros braços, que me acolheram com firmeza e carinho. Pela primeira vez, em meus 60 dias de vida, me senti seguro e amado.

Quando cheguei ao meu novo lar, meu corpo coçava. Tempos depois descobri que aquela coceira insuportável era sarna. Passaram a me dar banho gelado diariamente até eu ficar com a pele curada. Após o banho, uma toalha bem macia me abraçava e uma roupa bem bonita me deixava quentinho.

Um berço azul novinho foi comprado para eu dormir em segurança. Ali, no meu pequeno espaço, sonhei meus primeiros sonhos felizes e engraçados. Muitos rostos vinham me visitar. Ganhei tantos presentes que o guarda roupa ficou lotado.

Que ambiente maravilhoso! Bem melhor que meus dias em meio ao canavial, desprotegido e refém dos insetos que não me perdoavam. Passava horas exposto ao calor, suando e chorando.

Sobrevivi no ventre e resisti desde que nasci. Lutei sem saber que lutava. As feridas em meu corpo não foram suficientes para me levar deste planeta, nem mesmo o desamparo conseguiu empedrar meu coraçãozinho.

Hoje é um dia especial, estou completando meu primeiro aninho de vida. Todos em casa estão muito felizes. Na minha festinha há bolo, refrigerante, pão com carne e brigadeiro. Músicas  animadas também estão tocando.

Quero viver muitos anos e brincar bastante, crescer saudável, me apaixonar, trabalhar, estudar e aproveitar ao máximo a dádiva de estar vivo. Sei que minha história não é tão simples. Terei que perdoar, amar e não deixar que o medo e a mágoa me dominem.

Contudo, no momento, o desejo que explode em meu interior é o de aprender a falar, para agradecer todo o amor que recebi dos meus pais, que me escolheram para ser o filho caçula da família.

terça-feira, julho 14, 2015

Saudade de estimação

Os últimos dias me trouxeram sonhos diferentes. Não estou me referindo aos sonhos relacionados aos planos, metas e objetivos de vida, mas sim, das estórias, contos e poesias que surgem em minha mente enquanto durmo.

A responsável por me proporcionar tanta magia é a saudade. Ela sabe ser linda e cruel ao mesmo tempo. Varre pra debaixo do tapete uma infinidade de situações ruins, e me entrega um passado recheado de vivências legais e marcantes que geram desejos profundos em meu coração. Um coração que grita uma imensa vontade de reviver fases e estar perto de pessoas especiais.

Por mais que a caminhada esteja bem, a nostalgia sempre bate à porta e me leva para outra dimensão. Esse sentimento é tão forte que é capaz de arrastar geograficamente um individuo  ou enfermar alguém com crises psicológicas extremamente graves.

Percebi que é impossível fugir da saudade. Ela manda e desmanda. Tem o dom de bagunçar meus sentimentos mais tranquilos. Sentir falta da mãe, irmão, cachorro e amigos até que é normal, mas eu também sinto falta de ruas, cafés, coxinhas, céus, estradas, poluições, arquibancadas, etc. Então fica difícil suportar e às vezes não tenho pra onde correr.

Apesar de ser cruel comigo, a saudade também sabe ser generosa. Generosidade que aparece enquanto durmo. Acredito que ela sente pena de mim quando a vontade de partir me abraça com sutileza.  Aí, com remorsos, a saudadezinha reaparece nas madrugadas vazias, trazendo experiências extraordinárias quando meus olhos se fecham e o travesseiro me apaga.

Durante os sonhos, por alguns segundos, ou minutos, recebo visitas ilustres da minha mãe, irmão, cachorro e amigos. E foi assim que as últimas noites me presentearam. Até caminhei pelo meu bairro durante a noite passada. O engraçado foi que ao invés de acordar triste, acordei feliz e animado por ter passado um tempinho relâmpago com quem faz falta todos os dias.

Maldita saudade, que me esmaga durante o dia e na madrugada tenta reconciliação. Não... não te perdoo. Sou grato pelas noites de reencontros, mas preciso de uma trégua, pois as semanas estão difíceis.

O que me resta é não te dar ouvidos enquanto está claro e esperar sua visita em meio ao breu das noites inquietas.