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quarta-feira, janeiro 21, 2015

Maria sem graça

O barulho causado pelos veículos que cortam a Marginal Tietê não incomoda Dona Maria. Cansada de apanhar do marido e esquecida pelos quatro filhos, a senhorinha de idade desconhecida fugiu de sua casa e foi morar debaixo da ponte, que segundo ela, foi construída em sua homenagem: a Ponte da Vila Maria.

De dia, vive em busca de café da manhã, almoço e janta. E quando a escuridão prevalece, volta para seu lar de papelão, no desconforto chão marginal. Durante a madrugada, não poucas vezes, o frio a condena. Já em outras oportunidades é importunada por transeuntes alcoolizados que atrapalham seus pesadelos.

Normalmente ela desperta às sete da manhã do seu sono raso e respira profundamente o ar podre da fumaça dos carros e do rio, que estão em seu quintal. Observando os ônibus que passam, sempre se recorda de seu antigo itinerário, onde deseja nunca mais pisar.

A violência doméstica a deixou extremamente traumatizada. Traumas gravíssimos que precisariam de duas ou mais vidas para serem curados. Criativa, decidiu lutar contra a solidão inventando amigos imaginários. Amizades verdadeiras, compassivas, fiéis, de trato gentil e dócil, bem diferente das que havia vivido ao longo de sua história.

Antes de se levantar e começar a caminhada diária, ela costuma trocar dezenas de ideias com seus amigos. Conversas alegres, tristes e dramáticas. Quando tem algo incomodando sua alma, ela desabafa aos ouvidos invisíveis que a escutam atentamente. Cada vômito que evacua de seu coração é um morto a menos em suas costas.

Para os caminhantes da vereda marginal, ela fala com o vento. Eles não interpretam e não percebem seus companheiros de jornada. A enxergam vagamente e concluem que a pobreza a deixou louca e insana. Contudo, Maria possui a lucidez comum da metrópole, só que com alto nível de exposição social.

A ponte da Dona Maria sabe abraçar, sem julgar e acusar. Abrigo peculiar que devasta a selva. A imensa Marginal indiferente exclui quem resolve tê-la como lar. O rio reflete a fragilidade humana, que se rejeita desde o tempo de Caim. E como protesto, as águas salesopolenses exalam a podridão ao qual foi submetida de modo implacável. São quadros de difícil reversão.

O colapso mental, a violência familiar e a rigidez da rua foram a escola de Maria. O prognóstico é degradante, e o diagnóstico final é decidido pelos olhos dos curiosos que a enxergam de relance.