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sexta-feira, fevereiro 12, 2016

A culpa é da coruja


O Bairro das Lagoas sempre foi agitado. Crianças brincando pelas ruas, jovens pelas esquinas e adultos festeiros que não passam um final de semana sem que uma carne seja assada na casa de alguém.

Seis quarteirões compõe o território das Lagoas. A praça central se tornou o ponto de encontro aos domingos e uma pequena quadra de areia recebe times de futebol de outros bairros para jogos amistosos. Toda a cidade conhece a fama vitoriosa da equipe do Lagoas Futebol e Amizade. Ao redor do bairro existem quatro lagos, porém a chegada de diversas famílias deixou três deles impróprios para o divertimento.

A maioria das pessoas trabalha no centro da cidade. Viciadas em uma rotina exaustiva, saem de manhã e retornam de tardezinha. Um mercadinho emprega alguns jovens, e meia dúzia de famílias ganham a vida com seus bares improvisados em garagens.

Em Lagoas o calor é insuportável e a chuva cai praticamente todos os dias. É normal ver crianças se divertindo e aproveitando a água fria que desce do céu. Também é notável o amor que o povo de Lagoas tem por animais. Gatos e cachorros são vistos constantemente pelas ruas. E, por situar-se ao lado de uma enorme extensão de mata fechada, alguns tucanos, papagaios e outras aves sempre dão o ar da graça pelo céu do bairro.

Uma coruja também frequenta Lagoas e se aloja todas as  noites no quintal de dona Zélia, uma solitária viúva que foi abandonada por seu filho que decidiu viver na cidade grande. No quintal desta casinha simples de chão de terra, está plantada uma árvore que por muito tempo deu sombra ao casal, contudo, meses depois da morte de seu João, as folhas caíram e os galhos começaram a secar. E são nestes galhos que o bichinho passa sua vida noturna.

Lagoas aparenta ser um bairro feliz, mas é palco de muitas confusões. Mortes, roubos, vícios, homicídios, mentiras e traições são comuns no dia a dia da maioria das famílias do local. E, por incrível que pareça, a culpa de todas as desgraças foi terceirizada para a linda coruja dos galhos secos.

A verdade é que a coruja realmente observa o cotidiano do bairro como ninguém. Seus olhos espertos enxergam o movimento do tráfico de drogas na esquina da quadra de areia e já viu diversas vezes o caso extraconjugal de Fernando e Marcia, vizinhos de muro. Também presenciou o assassinato de Anão Pequeno, que foi roubar a casa do soldado Fleury, policial do bairro. Em uma madrugada fria, a corujinha piou alto quando uma viatura abordou e levou o Amarildo.

Enfim, esses são alguns fatos que a coruja presenciou, porém ocorreram muitas outras situações tristes em Lagoas.

Como sempre aparece alguém para aproveitar e ganhar ponto com a desgraça alheia, um líder religioso, que recentemente abriu um ponto de reunião na garagem de sua casa, sabia da existência da coruja visitante da casa de dona Zélia. E como ele conhecia a vida particular de quase todos os moradores do bairro, atribuiu à coruja a culpa de estar amaldiçoando Lagoas.

Rapidamente o boato se espalhou e todos desejaram a morte do animal. O que a comunidade não sabia era que a corujinha vinha todas as noites visitar a viúva dona Zélia para lhe fazer companhia e deixava a mulher contente e agradecida pelas horas de "conversa".

A senhora de idade avançada há tempos não recebia notícia de seu filho. Sobrevivia com um salário mínimo e tinha a sorte de ter uma saúde inabalável, pois assim não precisava gastar seu pouco dinheirinho na farmácia.

Todo fim de tarde, Zélia colocava sua cadeira na varanda, preparava um tereré e esperava a chegada de sua companheira. Ali, recordava de seu bom e fiel marido, que durante 32 anos esteve ao seu lado. Sentia saudades. Ao observar as estrelas, acreditava que um dia eles iriam se encontrar novamente e repetir os abraços apertados, as longas conversas e os passeios de mãos dadas.

A coruja, sábia e ligeira, vez ou outra emitia seus cantos para dona Zélia em sinal de carinho e amizade. A velha senhora escutava sua amiga e respondia todos os dias assim:
- Corujinha, se por acaso ver meu filho por aí, diz a ele que sinto saudade. Peça para meu menino arrumar um tempo para me fazer uma visita.

E assim se desenhavam os dias dessa intensa amizade.
Embora o quintal fosse o lugar de lindos encontros noturnos, o povo de Lagoas acreditava que dali saía todo tipo de praga que influenciava as pessoas do bairro a cometerem todos os tipos de males uns para com os outros.

O líder religioso que disseminou o boato era filiado a um partido político e pretendia se eleger nas próximas eleições. Com fortes aliados dentro da Câmara de Vereadores e da Prefeitura, ele fez um pedido para as autoridades derrubarem a árvore de dona Zélia, alegando que o tronco encontrava-se podre e se caísse na calçada poderia machucar alguém.

Durante as reuniões de garagem, o líder religioso gritava com fervor para que o seu deus interviesse na situação e acabasse com a coruja, que para ele era um bicho maldito e possuía espíritos malignos.

Dona Zélia se surpreendeu quando numa manhã de segunda-feira um caminhão velho trouxe funcionários da prefeitura que bateram palmas em seu portão. Um ofício que autorizava a retirada dos galhos secos de sua árvore foi apresentado, enquanto os homens diziam que só estavam cumprindo ordens.

Como não tinha ninguém para ajudar a pobre senhora a se defender, os funcionários se impuseram, armaram a escada e subiram com seus serrotes, cortando todos os galhos da árvore e deixando somente o tronco vazio.

Do outro lado da rua, uma multidão se reuniu para ver a queda da Babilônia. Em êxtase, o líder religioso agradecia aos céus e sonhava com muitos votos nas urnas. As crianças não entendiam muito bem, mas gritavam, comemorando a vitória do bem contra o mal.
Logo após o corte dos galhos e a saída das pessoas da frente de sua casa, a viúva entrou para seu quarto e chorou. Pensou na solidão e recordou do tempo em que não almoçava e nem jantava sozinha.

Os dias voltaram a se passar lentamente. Toda noite a senhora ainda prepara o tereré, coloca a cadeira no quintal e fica a espera da corujinha, que nunca mais voltou. Talvez esteja voando por aí à procura do filho de dona Zélia.

Quando a agonia domina seu ser, ela rega ao redor do que sobrou da árvore para que seus galhos nasçam novamente e cresçam depressa.


Desenho feito por Nayara Gomes


7 comentários:

  1. Caralho pai VC é zika... Fico pensando aq, quantas donas Zélia existem por aí... Sensacional pai!

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  2. Gratidão! E SIM, vocÊ é ZIKA....hahahah

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  3. Mais um texto zica, mlk
    Esse líderes religiosos desde sempre são uma praga na sociedade!
    Bem fez Jesus que não andou com eles

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  4. 😃 Parabéns,lindo texto. 👏

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