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terça-feira, julho 29, 2014

Coração de pai

Após anos frequentando o Estádio Nicola Cianflone, onde assisti privilegiadamente inúmeras partidas do meu pai defendendo o gol do time veterano do Lanifício, visitei, em uma noite de quartas de final da Copa Libertadores, uma arquibancada diferente, que eu só deslumbrava pela televisão.

Acostumado à pequena arquibancada do estádio do Lanifício, fiquei impressionado quando o fusquinha do meu pai parou diante do gigante Morumbi. Olhei para cima e li o nome “Cícero Pompeu de Toledo” pela primeira vez, enquanto um helicóptero sobrevoava o palco da decisão. Eu pisava no chão, mas por dentro, voava. Não parecia verdade e só agradecia por estar vivo naquele momento mágico.

O lado de fora era um caos. Acredito que havia mais de 100 mil pessoas ao redor do estádio. E em poucos minutos, São Paulo e Flamengo decidiriam a vaga para a próxima fase. O primeiro jogo, no Maracanã, terminou empatado em 1 a 1, com gols de Palhinha e Nélio, portanto, nada estava definido.

A ansiedade anulava o frio e a vontade de entrar para ver o gramado aquecia meu coração tricolor. Porém, havia um pequeno detalhe: não tínhamos ingresso. Imagina o nível de preocupação do meu pai. Levar o filho pela primeira vez ao Morumbi e não conseguir os bilhetes de entrada. Mas, ele não desistiu. Segurando a minha mão, começou a andar atrás de cambistas.

O São Paulo já havia entrado em campo quando um rapaz apareceu oferecendo dois ingressos para a arquibancada. Meu pai negociou e os comprou. Meus olhos brilhavam. Finalmente eu iria conhecer a casa do meu time do coração e deixaria de ser um “torcedor de sofá” – nada contra “torcedores de sofá”, cada um torce como quer.

As entradas eram para o setor do Flamengo, mas era possível ir até a torcida do São Paulo. Eu vestia uma calça de moletom azul escuro, uma camisa do São Paulo por cima de uma blusa e uma jaqueta jeans. Os flamenguistas me cumprimentavam e também chamavam meu pai de pai. Acho que eles sabiam da luta que ele enfrentou para conseguir o ingresso para nós.

- E aí, pai. E aí, são-paulino. Hoje vocês vão perder! – brincavam os rubro-negros.

Subimos a rampa, o policial nos revistou e caminhamos pelo corredor até a nossa torcida. Quando vi o gramado, a arquibancada e escutei a torcida cantando, meus olhos paralisaram. Meu sonho havia se realizado. Era inexplicável, uma emoção muito diferente da que eu vivia nos degraus do Lanifício.

Assistimos a partida inteira em pé, em frente ao túnel de entrada do portão 16. O jogo foi extraordinário, coroado com dois gols incríveis, um do Muller e outro do Cafu. Também estiveram em campo o goleiro Zetti, Vitor, Ronaldão, Dinho, Raí e outros craques, comandados pelo mestre Telê Santana. O Flamengo tinha Gilmar, Renato Gaúcho e Júnior, mas não aguentou a máquina Tricolor.

Não me lembro do nosso retorno para casa. Acho que na manhã seguinte contei para minha mãe e para todos meus colegas da escola sobre o jogo. Devo ter passado um mês só falando sobre isso. O São Paulo se consagrou Bi-Campeão naquele ano (1992-1993). Que saudade daquele time!

Depois desse dia, nunca mais deixei de ir ao Morumbi. Já se passaram 21 anos e meu coração são-paulino ainda bate forte, cheio de amor e respeito ao São Paulo Futebol Clube. Infelizmente, o coração são-paulino do meu Velho resolveu descansar, e em uma madrugada de inverno, fria como aquela do Morumbi, parou de bombear sangue tricolor em suas veias, me deixando órfão pelas estreitas arquibancadas da vida.



sábado, julho 19, 2014

Intensa despedida

Quatro anos se passaram desde a última vez que pisei nas terras do coração da América do Sul. Lugar interessantíssimo de se conhecer e um mapa da mina de se morar. E para alimentar as lembranças, em uma dessas noites extraordinárias, sonhei que perambulava novamente, atrás do pavio perdido, pelas ruas do centro de Santa Cruz de la Sierra.

Sensação aprazível até então, enquanto meus passos me guiavam para algum lugar que não me recordo. Talvez seguisse o aroma do café da Praça 24 de setembro ou ansiava por um pão de queijo da “7 calles”. Provavelmente uma visita à imigração ou montando o quebra-cabeça de mais um trabalho da faculdade. Impossível descobrir o meu rumo.

O impressionante foi que nenhum conhecido apareceu. Como se sucedeu um dia, assim permaneceu nas rápidas imagens que invadiram meu sono. Aqueles pequenos flashes abrilhantaram minha mente de tal maneira que pude deslumbrar as cativantes ruas estreitas, com seu trânsito encantador, cheio de microônibus e corollas, sujeira e barulho, sorrisos e abatimentos.

Foram poucos minutos de nostalgia até o ápice da estória. Enquanto prosseguia meu destino, algo surgiu como uma bomba em meus pensamentos e me perturbou: “Não sei o que faço aqui de novo, e não me lembro de ter me despedido da minha família”.

A falta do abraço, do tchau e do boa viagem da minha mãe e do meu irmão me fizeram parar no meio daquela desconhecida rua do centro e padecer sentimentos torturadores que berravam em meus ouvidos um cântico de ingratidão e vazio. Parei, olhei para trás, para frente, para o lado, e a imagem mágica que só as despedidas proporcionam não chegaram à minha mente.

Sim, eu havia fracassado no quesito “Despedida Familiar”.

Como já era de se esperar, acordei confuso e assustado. Andei sonolento até a cozinha atrás de um copo com água e no caminho acordei minha mãe e meu irmão. Falei um aliviado boa noite fora de hora e continuei o meu trajeto.

Antes de abrir a porta do meu quarto meu irmão reclamou:

- Tá ficando louco?

- Tô não, mano. Dorme aí. Amanhã te explico – respondi e voltei a dormir.