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segunda-feira, maio 26, 2014

Uma Copa no Brasil

A Praça Ramos de Azevedo encontra-se movimentadíssima. Diante da voz emocionada do locutor e das imagens, em alta definição, da enorme TV exposta na vitrine das Casas Bahia, uma multidão se aglomera na calçada para contemplar a primeira partida da Copa do Mundo 2014.

- A bola vai rolar no gramado mais charmoso da zona leste de São Paulo. Apita o árbitro. Começa o maior espetáculo da Terra! – emociona-se o narrador.

Muitos foram dispensados do trabalho, outros nem emprego têm. Contudo, quando se trata do tão esperado campeonato entre seleções, as dificuldades são colocadas de lado, pelo menos por noventa minutos.

Claudinho, sentado em sua bicicleta, possui olhos fixos na telona. Ele pedala diariamente pelas ruas e calçadas do centro, levando mercadorias de um lado para o outro. Mas, o momento merece um descanso, e ali, ao lado de desconhecidos, torce freneticamente para o Brasil vencer.

Ao lado do garoto da bicicleta está Moisés, pastor evangélico, que há poucos minutos discursava eloquentemente sobre o arrependimento de pecados, em plena Ladeira da Memória. Contente, conversa amigavelmente com dona Antônia, a jogadora de búzios e leitora de cartas de tarô mais famosa do Viaduto do Chá. Os dois palpitam sobre o time de Felipão e concluem que faltou Luis Fabiano na lista de convocados.

A cada lance, um grito espontâneo. O mais exaltado, sem dúvida, é o alagoano Sebastião. O cantor e tecladista ganha a vida se apresentando três vezes por semana na famosa calçada do antigo Mappin, que hoje se encontra tomada por telespectadores ansiosos.

- Toca a bola, Neymar. Chuta com força, Fred. Acorda, gandula. Bandeirinha maldito, ladrão! – berra o artista.

Mais ao fundo do aglomerado, em cima de uma caixa de madeira, a estátua viva prateada reclama dos passes errados da zaga brasileira. Também é possível ver um são-paulino e um palmeirense conversando sobre a ausência de jogadores de times paulistas na seleção.

Colado na vitrine, Renan, sentado em sua cadeira de rodas, não larga o celular. Escreve dezenas de comentários valiosíssimos em seu Twitter, opiniões bem mais interessantes que as muitas palavras vazias de alguns ex-jogadores/comentaristas de TV. Ao seu lado, cinco crianças moradoras da Praça da Sé, confusas, não sabem se prestam atenção no jogo ou na rapidez em que Renan digita suas mensagens.

- Mano, essa Copa é nossa – grita um office-boy.

Alguns senegaleses, vendedores de relógios da Rua 24 de maio, estão impressionados com o fanatismo dos brasileiros. Sorriem com cada grito entoado após uma boa jogada. Também há bolivianos, chilenos e colombianos. Argentinos não se encontram.

Ao longe, policiais militares e guardas civis metropolitanos observam atentamente cada movimento. Seguranças particulares do Shopping Light cruzam os braços e oferecem expressões de poucos amigos aos torcedores.

Em frente a um prédio da Rua Barão de Itapetininga, ativistas políticos, com punho pra cima, protestam contra o evento da FIFA. Nas escadarias do Teatro Municipal, meia dúzia de cidadãos adormecem embriagados, sem forças de reação e sem esperança na seleção.

O intervalo chega e os presentes aproveitam os bares abertos para irem ao banheiro. Outros acendem um cigarro. Os mais espertos não saem do lugar para não perderem seus espaços privilegiados.

O jogo recomeça. A euforia renasce. O duelo continua difícil dentro de campo. A câmera do famoso canal de TV, foca na arquibancada e mostra pessoas abraçadas, com rostos pintados de verde e amarelo, felizes por serem testemunhas da abertura da Copa. No centro, a realidade é outra. A alegria de quem parou em frente à loja se encerrará em alguns minutos. Cada um tomará seu rumo e continuará sua lida.

A diversidade cultural da arquibancada da Arena moderna será capa de jornal em todo o mundo, e a diversidade cultural da Praça Ramos de Azevedo continuará o seu ritmo por longa data. Sem muito glamour.

Falta pouco para o final do jogo. A calçada continua lotada. Alguns olham para o relógio e para o céu, pois as nuvens estão escuras e carregadas. Alguém grita: Olha a capa de chuva, olha a capa de chuva.

Começa a garoar. Na tela, o gol não sai. 

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