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segunda-feira, abril 14, 2014

Tempo de mãe

Mãe, perdão! Fui um tolo, irresponsável. Fala comigo, por favor.

O tempo não volta. Não tem desculpa e nem perdão. Alguns poucos conseguem prever o fim e se resolvem antes do último adeus, porém eu não tive a mesma sorte.

Minhas mãos quentes tentam acalentar as mãos frias de minha mãe. Cada palavra que falo é um clamor aos seus ouvidos adormecidos. As lágrimas que caem do meu olhar arrependido não têm mais o poder de gerar um abraço. O choro e o silêncio dançam ao meu redor, em ritmo de final infeliz.

Talvez houvesse dado tempo, se ao invés de tratar com indiferença eu agradecesse e estivesse atento para ajudar no que fosse necessário. Quantos “eu te amo” deixei de dizer? Quantos “ah, cala boca, para de me encher o saco” saiu de minha boca, sem imaginar quanta dor geraria no coração de minha mãe?

Agora é tarde, ela não me ouve. Não pode me perdoar. Pensei que o fim tardaria, acreditei que teria tempo para tratá-la como ela sempre deveria ser tratada: como mãe, mulher, amiga.

Lágrimas, remorso, arrependimento, culpa e uma imensa vontade de rasgar meu coração e detalhar cada atitude equivocada que tive. Ela está pálida, imóvel, quieta. Deitada como alguém que trabalhou bastante e agora descansa. Já não existe reconciliação.

Esquecer seu aniversário era algo normal. Nunca liguei para o dia das mães, exceto no primário, quando era obrigatório criar uma lembrancinha e cantar uma musica pra ela. Eu até gostava, mas um dia eu cresci e aprendi a correr atrás do vento. Daqui pra frente, todo dia vai ser um dia das mães para mim, pois o que era fácil de esquecer, tornou-se impossível não lembrar.

Fixo meu olhar em seu rosto. Minha linda mãe agora dorme. Aliás, nunca prestei atenção antes, nem me recordo de tê-la visto em um profundo sono. Como fui negligente. Tirei nota 10 na arte da desobediência quando era adolescente e me formei no curso da intolerância e da indiferença quando adulto. Minha mãe não merecia tanta ingratidão.

O tempo passou, acabou. Lembro-me do café da tarde que rejeitei tomar ao seu lado. Alguém me arrasta para trás e, lentamente, uma tampa de madeira impede meu último olhar. Um amigo vem e me abraça, mas não há consolo. É tarde demais para nós.