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sábado, novembro 23, 2013

Sangue prematuro

Pequeno não conheceu o pai. Em seus 13 anos de existência tudo que possuía, além da casinha alugada no pé do morro, era Maria, sua mãe, e Alaor, seu irmão mais velho. A família evitava comentar com o caçula que seu pai era um monstro, que batia em sua mãe e não poucas vezes espancou seu irmão com um pedaço de bambu. A única informação que chegou até o garoto foi sobre a valentia de seu tio Nonô, que ameaçou e obrigou seu pai a sumir da vida de sua mãe. Nonô já não aguentava ver tanta covardia dentro da casa de sua irmã e temia um possível aborto, já que Pequeno era um feto de algumas semanas.

O ventre de Maria aguentou todas as adversidades e seu filho nasceu forte e com muita saúde. Cresceu vendo sua mãe trabalhar duro como faxineira na casa de vizinhos. Seu irmão trabalhava como empacotador em um supermercado e sempre que podia ajudava “seo” Manoel na fábrica de bloco que ficava ao lado de sua casa. Ele dizia que alguns trocados a mais sempre eram bem-vindos para fortalecer no orçamento da casa.

O bairro em que os três moravam era tranquilo, porém, como em todos os lugares, existiam aqueles que procuravam se esquecer dos problemas através de caminhos perigosos, que geravam confusões e atritos com a polícia e grupos rivais. E foi em uma dessas vias que o menino Pequeno se deparou com a extrema covardia, bem mais violenta que as sofridas por sua família quando seu pai ainda residia em seu lar.

A necessidade de se autoafirmar levou o garoto a aceitar alguns trabalhos diferentes. Ele teria que ir até uma cidade vizinha e buscar dois quilos de substâncias ilícitas por dia. Além das passagens do ônibus, ele ganhava 100 dinheiros a cada serviço realizado. O que sua mãe recebia por mês, ele recebia por semana. Danones e Sucrilhos começaram a se fazer presentes com mais frequência na cozinha de sua casa, contudo, o dinheiro ganho ilegalmente também era usado para suprir sua dependência química que aumentava gradativamente.

Sempre mentia para sua mãe. Explicava que trabalhava como ajudante em uma oficina do outro lado da cidade. Com seu irmão o papo era reto e o bicho pegava todas as vezes que eles se esbarravam no lar. Alaor sabia do envolvimento de seu irmão menor e conversavam sobre o assunto rotineiramente. O problema era que Pequeno gostava da vida fácil e se sentia protegido por seus “pais” da rua. Vez ou outra argumentava que eles eram o pai que ele nunca teve e que sempre estavam presentes dando dinheiro, atenção e conselhos para crescer na vida.

Em uma terça-feira chuvosa, o menino de Maria saiu de sua casa para cumprir mais uma missão dada por seus patrões. Antes de ir ao ponto de ônibus passou pela casa de Dalila, a bela menina que ganhou seu coração. Levou um chocolate de presente e disse que logo voltaria, pois há três dias não se viam e a saudade já o maltratava.

A viagem de uma hora foi muito pensativa. Pequeno refletia sobre as aquisições do último mês: celular de última geração e roupas caras. Não via a hora de completar 18 anos e comprar uma moto potente para descer para o litoral todo final de semana. Também recordou que a qualquer momento poderia ser preso e passar meses na casa fundada pelo governador do Estado.

Após chegar ao local, pegou a encomenda e no caminho até a rodoviária foi abordado por dois policiais, que encontraram os quilos em sua mochila. As autoridades o levaram até um terreno e o espancaram. Após a sessão que faria inveja a qualquer cena de tortura do cinema, liberaram o garoto sem as substâncias ilícitas.

“Me agrediram e levaram a parada. Não sei o motivo de não me prenderem, mas podem ficar de boa que eu vou pagar o prejuízo”, - disse Pequeno para os caras da boca, logo após voltar da missão mal sucedida.

Apesar de retornar sujo e machucado, essa história não convenceu seus patrões, que perderam uma quantia exorbitante de dinheiro e deram um prazo para que Pequeno ressarcisse o valor apreendido pelos homens da lei. O filho de Maria não se importou muito, já que em duas semanas de trabalho conseguiria pagar seus superiores e quitar toda a dívida.

Desconfiados se o garoto tinha ou não caguetado todo o esquema, resolveram reavaliar toda a situação. Primeiro mudaram a rota das idas e vindas das mercadorias e dispensaram Pequeno da missão. Agora ele teria que cobrar dívidas de usuários e em uma semana teria que levantar o dinheiro perdido para os policiais.

Com medo de não conseguir reverter a situação, o menino fugiu. Desesperada, Maria procurou seu filho nos hospitais, delegacias e até pediu que a rádio da cidade divulgasse seu desaparecimento. Seu irmão sabia do caso, mas não tinha amizade suficiente com os caras da biqueira para conseguir o perdão para seu irmão.

Dias se passaram e Pequeno retornou ao seu lar. Chegou no horário em que sua mãe não estava e conversou com seu irmão sobre a situação.

“Vou lá desenrolar com os caras, talvez eles me deem um prazo maior. Não aguento mais dormir na rua, quero voltar pra casa e mudar de vida. Vê lá no mercado se tem alguma vaga pra mim?” – desabafou com o coração cheio de angústia.

Ao encontrar seus patrões, explicou a situação e pediu um novo prazo. Eles sorriram e disseram que ele teria mais tempo para conseguir a grana. Após se cumprimentarem, convidaram Pequeno para fumar um beck para relaxar da tensão que ele se encontrava. O adolescente aceitou e caminharam até a beira de um lago que ficava perto do bairro.

Acenderam o baseado e em meio a fumaça, um dos patrões retirou uma faca da mochila e cravou no peito de Pequeno. Foram mais de 20 golpes no corpo frágil do garoto. O filho de Maria não teve tempo nem de pedir clemência. Ainda de olhos abertos e com a boca cheia de sangue, Pequeno viu suas pernas serem cobertas por gasolina e um fósforo aceso cair lentamente em seu corpo ensanguentado. Um de seus “pais” da rua comentou que o serviço estava completo e que era hora de voltar ao trabalho.

Algumas horas depois do assassinato, Maria e Alaor receberam a maldita notícia que tanto temiam. O menino que um dia venceu o aborto, recém havia perdido sua vida. A covardia que tanto insistiu em permanecer na história daquela família voltou a reinar, e agora pretende jazer eternamente.

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