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sábado, agosto 17, 2013

Amor e panelas

Além de cuidar diariamente dos netos que se divertiam correndo pela casa, dona Ana tinha em sua rotina outras obrigações como: limpar os cômodos, lavar roupas e preparar as refeições. Eram práticas que a satisfaziam. Apesar de cansativo, ela adorava acordar todas as manhãs para mais um dia cheio de afazeres.

Essa linda senhora de 77 anos reuniu ao longo de sua vida muita história pra contar. Mãe de 11 filhos, sendo dois falecidos, colecionou sorrisos e lágrimas durante sua caminhada. A bela trajetória de vida não foi fácil e por causa de tantos momentos difíceis aprendeu a ser uma pessoa compassiva e leal. Uma de suas principais características era amar as pessoas fazendo o bem a elas.

Apesar de ser uma mulher de idade, era forte e lúcida. Não se deixava enganar. Nem mesmo seus netos conseguiam levá-la para “grupo”. Sua bondade era gigantesca, contudo não era boba. Estava sempre atenta e só se desligava do mundo quando ligava a TV para assistir os programas do Silvio Santos.

Certa vez, em meio às tarefas diárias, um vendedor bateu palmas em seu portão. Ela estava ocupada lavando louças quando escutou o chamado. Fechou a torneira, enxugou as mãos em seu avental florido e foi verificar quem havia aparecido naquela hora do dia para vender qualquer coisa.

Aproximou-se das grades que separavam a garagem da calçada e percebeu que era um jovem vendedor de panelas. Ela espantou-se com a quantidade de panelas que o rapaz carregava e enquanto ele falava sobre os benefícios de comprar aqueles utensílios, ela observava o árduo trabalho do falador.

 O dia estava quente e ela lhe ofereceu um pouco de água para ajudar em sua hidratação. Ele aceitou e agradeceu, dizendo que raramente alguém lhe tratava com cordialidade. Além da água, dona Ana também trouxe um pedaço de bolo de chocolate que seu filho havia comprado na padaria.

Embora a gratidão tenha tomado o coração do vendedor, ele sabia que precisava vender aquelas panelas e a senhorinha bondosa era presa fácil. Porém, mal sabia ele que a tal presa fácil era mais ligeira do que ele e não ia cair no papo furado de que aquela panela era melhor do que as panelas que ela já possuía.

Depois de explicar cada detalhe dos objetos, comer o bolo e tomar a água, o “maluco” perguntou se dona Ana ia querer comprar e até fez uma suposta promoção do tipo: pague 1 e leve 2. Só que a vózinha não estava preocupada com as panelas, mas sim com o peso que ele estava carregando. E com todo aquele carinho e compaixão, disse que ficaria com as duas da promoção.

E assim aconteceu. Voltou pra dentro pensando onde as colocaria, pois o armário estava lotado. Sem se preocupar e feliz por haver ajudado aquele cidadão, dona Ana colocou as panelas em cima da mesa e continuou o serviço do lar. Antes, foi verificar se os netos que jogavam futebol na área estavam comportados e sem nenhum arranhão.

O dia passou, a noite apareceu e seu neto mais velho, que morava com ela, chegou. Ao ver as panelas sobre a mesa a questionou:

- A senhora comprou mais panelas ou ganhou de alguém?

- Comprei, meu filho.

- Mas a senhora já tem tantas, por que comprou mais?

- Você sabe como é, né? Nossa cidade tem muitos morros. Eu fiquei com pena do moço e resolvi diminuir o peso que ele carregava.

O neto sorriu e foi para seu quarto. Sabia que sua vó não tinha jeito. O amor que ela tinha pelas pessoas era expresso em atitudes e não em palavras vazias.

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