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domingo, abril 14, 2013

Barriga vazia, oficina do Tião

O frio congelava os pés de Tião enquanto o relógio avisava que era hora de ir trabalhar. Eram seis da manhã e aquele corpo não queria sair da cama de jeito nenhum. A vida, no entanto, não estava fácil e se ele chegasse atrasado mais uma vez, corria o risco de ser demitido por justa causa.

Apressou-se. Escovou os dentes, colocou o uniforme azul do serviço, calçou as velhas botas pretas, pegou o capacete, a chave e os documentos. Montou em sua CGzinha e saiu em disparada para a empresa. O trajeto demoraria trinta minutos, tempo suficiente para bater o cartão na hora certa.

Sua barriga não roncava, ela berrava. Encontrava-se faminto e debilitado, pois havia jogado futebol na noite anterior, e de tão exausto, dormiu sem jantar. Pensou em parar na padaria, mas desistiu ao lembrar que perderia muito tempo ali. Continuou seu caminho e ao brecar no semáforo de um cruzamento, teve uma ideia muito original.

Em segundos, Tião bolou um plano bem ousado que tinha tudo para dar certo. Era só entrar no local, pegar o pão, tomar um cafezinho e sair andando. Em menos de um minuto ele estaria com um pão no bolso da jaqueta e um pouco de café dentro da barriga. O farol abriu e ele saiu como uma flecha em direção ao alvo.

Depois de passar pelo supermercado, ele precisaria virar a primeira à esquerda, e no final daquela rua estreita, haveria um prédio branco muito conhecido e frequentado: o velório. Ali, deixaria a moto no estacionamento que fica ao lado da porta principal e entraria como se fosse amigo do falecido. Caminharia até a cozinha e desenvolveria seu plano mirabolante.

Havia umas vinte pessoas velando um homem. Tião foi ligeiro e não perdeu tempo. A meta era vencer o seu algoz que o atormentava naquela gelada manhã. Estacionou, tirou o capacete, fez cara de triste, entrou e partiu em direção à cozinha. Pediu licença para uma senhora que estava no lugar, passou manteiga no pão, guardou o alimento no bolso, tomou dois copos de café e disfarçou.

Começou a ser notado por todos e uma senhora, amiga do morto, percebeu a malandragem do motoqueiro. Um rapaz que se encontrava sentado perto da janela levantou-se e chegou perto de Tião perguntando se ele conhecia o homem que havia ido desta para melhor. Indignado, o faminto fez uma cara de lamento e respondeu:

- Pow, claro que conheço, fiz vários rolês com ele. Estou inconformado com esta perda. Agora me dê licença que preciso ir trabalhar.

A senhorinha observou toda a situação e disse em voz alta: Que sem-vergonha, fazia oito anos que o Antônio não andava. Como ele tem coragem de insinuar que já fez vários rolês com um homem de 73 anos que passou seus últimos momentos de vida preso em uma cama?

Enquanto familiares e amigos conversavam sobre o caso, Tião chegava em cima da hora em seu trabalho, comendo um pãozinho com manteiga e pronto para encarar oito horas em frente de uma máquina.

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