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segunda-feira, dezembro 03, 2012

Vou te falar, hein!


O sol havia cansado de trabalhar e foi descansar. A escuridão chegou e as luzes que ficam no alto dos postes começaram a labuta do turno da noite. A rua encontrava-se movimentada e pessoas de todos os tipos e histórias caminhavam por ela. A rua amava ser aceita por todos.

A garoa e o frio deixavam o cenário mais apropriado para aqueles que não gostam de calor e na esquina da Rua Augusta com a Rua Peixoto Gomide, cerca de dez pessoas dividiam o toldo de algum comércio. Dentre essas dez pessoas estavam o Diegão, a Rúbia, o Magal, a Karol e eu.

Enquanto o Diego contava uma história sobre o tempo em que ele pintava paredes, eu conversava com um são paulino que vendia bebidas em uma caixa de isopor. A ideia estava fluindo e novos assuntos apareciam quando um senhor me pediu uma moeda. Ele vestia uma blusa de lã azul e uma bermuda azul escuro. Na mão esquerda, segurava um copo com vinho  e talvez estivesse há dias sem tomar banho. Entreguei um valor de metal e perguntei seu nome. Cheio de serenidade me respondeu:

- Prazer, me chamo Siqueira!

Eu gosto de conhecer pessoas no rolê. O Leonardo nunca mais foi pra nenhum lugar comigo. Ele me disse que eu quero fazer amizade com todo o mundo e por isso ele prefere ir para onde eu não estou.
Perguntei ao meu novo conhecido de onde ele estava vindo. Sorridente, me respondeu que estava caminhando, sem rumo e que naquele dia iria "chapar o côco" .

Siqueira é santista e me disse que o Ganso é um traidor, que não deveria ter ido para o São Paulo. Não concordei e afirmei que os melhores jogadores sonham em jogar no melhor clube do Brasil.
A chuva ficou mais forte e não tínhamos como nos esconder porque o toldo era pequeno demais. Mas, a rua continuava movimentada. Alguns passavam gritando e outros circulavam em seus carros com um som alto que tocava uma música qualquer, da moda.

A Karol foi até o maluco do isopor e comprou um refrigerante para mim. Tomei um pouco e ofereci ao Siqueira, que aceitou, tomou e devolveu a lata. Entre um gole e outro, perguntei se ele estava na rua porque não tinha opção ou se ele tinha um lar e mesmo assim resolveu abandonar tudo. Ele me olhou e disse: 

- Marquinho, não quero mentir pra você, então não vou responder.

Eu olhei, gostei da ideia e respondi:

- Firmeza, mano.

A chuva continuava forte e o maluquinho da bebida continuava vendendo seus refrigerantes e suas cervejas. O movimento era intenso e o lucro aumentava a cada minuto. Mas, ele tinha uma preocupação, o "rapa" poderia aparecer a qualquer momento, quebrar seu isopor e levar todas as suas latinhas e as suas lindas garrafinhas de Heineken.

Comecei a contar para o Siqueira sobre a minha caminhada. Falei sobre a minha família e como foi que eu recebi a notícia da morte do meu pai. Também contei sobre meu tempo em Jocum e sobre o um ano e meio que passei na Bolívia. Encerrei a história explicando que apesar dos pesares é possível recomeçar e o quanto sou grato a Deus pela mãe que eu tenho, que sempre foi o pilar da família.

Ele começou a falar sobre a vida de seu irmão e sobre o tempo em que frequentava a Assembléia de Deus. Nostálgico, disse que alguns deslizes na caminhada podem acarretar em sérias consequências e prejudicar terrivelmente a vida de uma pessoa.

A conversa estava ficando um pouco triste por causa das lembranças. Então resolvemos ir até o pessoal e conversar sobre outros assuntos. Ali, Siqueira conheceu os meus amigos e pôde dar algumas risadas. A Rúbia perguntou se ele tinha família e a resposta veio com um enorme sorriso: 

- Sim, tenho uma mulher maravilhosa e uma linda filha. Ela é alta e tem os cabelos encaracolados igual ao meu.

Minutos depois,  se despediu, desceu a Augusta sentido centro e continuou seu rolê sem destino. A chuva havia maneirado e o Magal estava com fome. Então resolvemos subir a rua e comer um dog para enganar o estômago. Sentado no banquinho e observando a galera que passava, comecei a refletir no que havia acontecido naquela madrugada. O rolê já estava muito bom e a presença do Siqueira ajudou a enriquecer o momento.

Foram minutos de uma conversa decente e sadia, daquelas que poderiam durar horas. Apesar do pouco tempo, aprendi algumas coisas com o camarada. Fui ensinado que é melhor não dizer algo do que mentir. E apesar dos espinhos da vida, é sempre bom relembrar do passado para não cometer os mesmos erros no futuro. Também é essencial recordar dos momentos felizes e alegres em que passamos com pessoas que se tornaram especiais e importantes em nossa caminhada.

Galera... valeu por aquele dia!











7 comentários:

  1. Ai Marquinho, não tenho palavras para me expressar,
    desejo tudo de bom para vc, que Deus te abençoe.
    Do seu amigo de hoje e sempre.Diego

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  2. Meu Brasil brasileiro, cheio de Siqueiras e pandeiros.

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  3. Que Deus proteja o caminho desse e dos outros Siqueiras que ainda encontraremos pelas esquinas de São Paulo.

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  4. fazia tempo que não lia seus textos....me emocionei...bjs lua!

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  5. Ae Marquinho muito bom, valeram os minutos lendo!!

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  6. "[...] quebrar suas lindas garrafinhas de Heineken", kkkkk. Mano, seus textos estão muito bons, parabéns. Um brinde de Heineken ao Seu Siqueira!

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  7. Parabéns pelos relatos, podemos até vivenciar o momento somente pela sua escrita! Adorei a indicação do André quanto ao seu blog!

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