Páginas

sexta-feira, junho 22, 2012

Engano interior

Ela mora num quarto escuro e abafado, de paredes brancas, cobertas de mofo.

De dia, prefere não conhecer o sol e à noite,  não deseja contemplar as estrelas.

Escolheu não enxergar. Rejeitou a luz. Ansiou por tudo que é desprovido de serventia.

Amou a inutilidade.

Tornou-se o oposto da novidade. Contentou-se com seu velho colchão, precioso companheiro que lhe fornece conforto.

Não recebe visita de amigos. A frequência de vida que leva, não lhe permite desenvolver laços afetivos. Seus relacionamentos são utilitaristas. Amizades verdadeiras, segundo ela, dão muito trabalho.

A janela do seu quarto virou morada de cupins. Mas não se importa. Sente prazer em abandoná-la.

A liberdade mora do lado de fora. Mas não quer ser livre. Isso exige muita responsabilidade.

Odeia a luz. Não quer enxergar o simples. Não quer ser governanta do que é útil.

Tem medo da janela.

Não é obrigada a sair do seu querido esconderijo. Conhecer o ambiente externo, certamente, causará rachaduras em suas máscaras. Não quer perdê-las.

Prefere as lágrimas forçadas e os sorrisos de desespero.






5 comentários:

  1. de tras de ella es mas seguro...Dios tenga misericordia de mi.

    ResponderExcluir
  2. Sinto pena das pessoas que, como ela, tem medo de se entregar à vida.

    Gostei do texto!

    ResponderExcluir