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domingo, maio 27, 2012

O menino e a laje


Nas ruas, no pasto e nas lajes. Rostos apreensivos, alegres e tristes. Gritaria. Xingamentos. Alopração. Diversidades de cores e tamanhos. O céu ficava "forrado" de pipas. A cada "rélo", correria! Essa era a realidade do bairro do Lanifício quando o vento resolvia soprar mais forte

A "mulecada" sempre estava envolvida nas batalhas aéreas. Alguns compravam a pipa, outros faziam e outros esperavam alguma cair do céu. Sexta-feira à noite era dia de preparar o arsenal. E aquele fim de semana foi diferente, pelo menos para Eduardo, o Dudu, como era conhecido.

A energia tinha acabado e o bairro estava em silêncio. Mas,  em um dos quartos da casa 899 da rua Castro Alves, havia uma movimentação diferente. Em meio a bagunça de linha, folha de seda, cola,  bambu, vareta e pó de vidro, estava Dudu,  sentado numa cadeira, ao lado do guarda roupa, iluminado por cinco velas. Um radinho de pilha em cima da cama, sintonizado na 105.1, Espaço Rap, fazia a trilha sonora da noite.

"É época de pipa, o céu tá cheio, 15 anos atrás eu tava ali no meio. Lembrei de quando era pequeno, eu e os cara... faz tempo, e o tempo não pára", os Racionais cantavam no radinho enquanto Dudu fazia as varetas e colava as folhas.

O frio estava começando a congelar a noite e dona Marina, mãe de Dudu, bateu à porta e falou:

- Filho, está na hora de dormir, apague essas velas e amanhã você termina de fazer as pipas. Ah, se cobre bem porque está frio.

Obediente, ele fez o que a mãe ordenou.

Quando o galo cantou, o menino viciado em pipa já estava de pé. Sentou - se à mesa e tomou um café da manhã reforçado. Sua mãe havia preparado café, leite com chocolate, pão com manteiga e queijo. Comeu, vestiu seu chinelinho "havaiana system" que tanto gostava e foi até a casa do Tidão.

Como não teve tempo de terminar de fazer tudo que precisava, Eduardo tinha um grande problema. As pipas já estavam prontas mas faltavam  fazer as rabiolas e o cortante. E como sempre, o Tidão teria alguma ideia pra resolver esse "b.o".

Tidão ainda dormia quando foi chamado. Saiu só de bermuda, com cara de sono e escutou o que Dudu tinha a dizer. Depois de entender a situação, respondeu:

- Mano, minha mãe vai sair daqui a pouco e vai demorar pra voltar. Vamos aproveitar e fazer o cortante no fogão de casa e pegar as sacolinhas de lixo que ela guarda atrás da porta, assim podemos fazer as rabiolas.

Feito. Dona Irani saiu e os "ratos" invadiram a cozinha.

Fizeram a maior "zona". Enquanto o cortante fervia, fitinhas de plástico iam sendo amarradas em pedaços de linha. Fizeram tudo em uma hora. Limparam e foram até a rua de baixo para terminar o ritual.

Esticaram as linhas entre os postes, passaram o cortante com cuidado pra ficar fininho e esperaram secar.

Já era quase meio dia e a barriga dos dois começou a roncar. Resolveram subir o morro para almoçar. Foram até a cozinha de dona Irani, que nem percebeu que seu fogão tinha sido utilizado para outros fins. O cheiro estava ótimo. Ela havia preparado arroz, feijão, bife, omelete e salada. Ficaram por ali mesmo.

Sentaram - se à mesa e antes de colocar a comida no prato, uma Coca-Cola gelada foi aberta. Comeram bem e tomaram todo o refrigerante. Depois voltaram para a rua, sem esperar a comida "baixar".

Havia apenas duas pipas no céu, a maioria da "mulecada" deveria estar almoçando. Enquanto não começava a guerra, sentaram-se na calçada e ficaram conversando.

- Mano, hoje vou empinar de cima da laje de casa. Ali é perfeito, disse Dudu.

- Podi crê, mano! Eu vou ficar aqui na rua mesmo. Hoje a gente faz a festa, respondeu Tidão.

As pipas começaram a aparecer e eles foram buscar suas pipas e linhas.

Um na laje e outro na rua, eram os dois contra todos.

Tidão já tinha cortado duas e Dudu,  perdido uma. Mas estavam se divertindo. O dia estava muito agradável.

De repente,  uma pipa vermelha veio do morro de cima e entrou na linha de Eduardo. Ele, surpreendido, começou a enrolar para nao ser cortado "na mão". Tidão olhou para cima e começou a xingar o maluco que estava na maldade, e quando se virou para falar com Eduardo, percebeu que não havia ninguém em cima da laje.

Ele havia se concentrado demais no embate, que para muitos valia a honra, e no meio daquela neurose, caminhou para trás e não percebeu o fim da laje. Eduardo caiu da altura de sete metros e seu braço bateu em um murinho que havia embaixo, cortando seu pulso e quebrando seu braço direito. Tidão, desesperado e quase chorando, começou a gritar e logo apareceu o "seo" Figueroa, pai de Dudu, que ficou em choque quando viu o menino estirado no chão. Dona Irani também saiu na rua, imaginando que pelos gritos de seu filho, algo de muito ruim havia acontecido.

Cheio de sangue na roupa e com o braço "zuado", Eduardo foi levado ao Hospital e, além ganhar um gesso no braço, tomou cinco pontos no pulso. Quando a noite apareceu e tudo estava mais calmo,  Dudu,  deitado em sua cama, olhando para o teto, ficou pensando sobre o drama que havia vivido. Também concluiu que sua família e seu amigo Tidão, foram essenciais naquele momento e nunca mais iria esquecer desse fato.

Foi um susto para todos que ali estavam. Poderia ter acontecido algo pior com o menino do pipa.

Anos se passaram desde esse episódio e a cicatriz no braço direito de Eduardo ainda confirma que aquele tempo  nas ruas do Lanifício foi bem aproveitado, e que é melhor cair da laje do que perder a infância na frente da "tecnologia".








quinta-feira, maio 10, 2012

Felicidade efêmera

Bela,
nasce atrás do monte, em frente a minha janela.
impossível não notá-la,
olhos claros, desenhos na pele,
passo horas a contemplá-la.
momento único, cativante, inspirador,
transforma minha noite escura,
num ambiente cheio de cor.
mas da mesma forma que surge, ela desaparece,
deixando saudade e sonhos,
que nunca acontecem.