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quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Naquele tempo


Feriado no domingo não é muito agradável para quem já o tem como dia de folga, mas aquele primeiro de maio de 1994 foi marcante, pelo menos pra nós, aqui do bairro.

Dia do trabalho é sempre uma data cheia de manifestações e reflexões, mas como não estávamos nem aí para nada, e nem tínhamos idade para isso, o jeito foi rachar no futebol.

Logo cedo, às nove horas, tínhamos um jogo-contra na quadra do Lanifício. Estávamos dispostos a jogar com raça para vencer os nossos rivais, a “mulecada” das “casinha”.

A temperatura estava agradável naquela manhã. Quase ninguém na rua, exceto as senhoras que voltavam sorridentes da padaria, segurando suas sacolas com leite e pão.

Eram quase oito e vinte quando o nosso time começou a aparecer e se reunir em frente à casa do Renan. Aos poucos, os “muleques” iam chegando. Enquanto alguns desciam o morro com cara de sono e olhos cheio de remela, outros chegavam animados, entoando nossos gritos de guerra.

O clima era de harmonia. Os que chegavam comendo pão com manteiga e bolacha, repartiam com quem não havia tomado café da manhã. Quem não se alimentasse direito corria o risco de não aguentar o pique do jogo.

O horário da partida se aproximava e, como sempre, o Tidão estava atrasado. Fred e Rodrigo já reclamavam do atraso quando, de repente, nosso zagueiro surgiu no topo da rua. Alguns gritaram “até que enfim” e os outros ficaram observando-o descer o morro de chinelo, bermuda e com uma camisa do Planet Hemp sobre o ombro.

Pronto! Já podíamos ir!

Saímos em direção ao campo. No caminho, íamos chutando a bola e conversando. Eu comentava sobre o clássico que aconteceria às quatro da tarde entre São Paulo e Palmeiras e o Dudu explicava como conseguiu o emprego no Bar do Escobar.

Ao entrar na avenida Nicola Cianflone, que ainda era de terra, os mais ansiosos começaram a jogar pedras nas lâmpadas dos postes, enquanto os mais famintos roubavam goiabas na chácara Paraíso.

O ritual da caminhada acabou quando chegamos na quadra de areia. O time adversário já nos esperava. Entramos, deixamos o chinelo perto do portão, cumprimentamos os caras e decidimos as regras: cinco vira e dez acaba, sem tempo e todos descalços.

O jogo começou “pegado”, os pés descalços dos dois times não estavam nada amigáveis. Jogo duro. Nenhum dos dois times se sentia visitante, portanto, ninguém queria perder em casa. Eu estava no gol, e de longe via os dois times jogando como se joga um Uruguai x Argentina.

Saímos na frente com um gol do Eric, mas logo em seguida eles viraram o jogo. Chutamos duas bolas na trave, chutes certeiros do Fred e do Oreia, mas não teve jeito, a primeira parte terminou cinco a quatro para eles.

Tínhamos quinze minutos de intervalo e durante esse tempo nos revezamos na única torneira que havia disponível, aquela que ficava ao lado do banheiro.

O senhor que cuidava do campo, o famoso “Seo” Geraldo, passou e disse para paramos de tacar água um no outro, que era desperdício e que se não parássemos ele ia mandar todo mundo embora. O Tidão pediu desculpa e fomos para o segundo tempo.

A segunda parte começou em um ritmo devagar. Os primeiros minutos não trouxeram muitas emoções. Estava parecendo um jogo de compadres, bem diferente do primeiro tempo. Os adversários estavam em um ritmo mais lento, mas não estavam mortos e, de repente, no meio daquele marasmo todo, quando percebi, veio uma bomba em minha direção, só tive tempo de esticar a mão e desviá-la por cima do gol.

Era o que precisávamos para acordar e tornar o jogo “brigado” novamente.

Outros gols saíram, houve jogadas bonitas e chutões para o mato. Até que o placar marcou nove a oito a nosso favor, aí o clima ficou tenso e todos se tornaram mais prudentes.

Já estávamos exaustos, mas a vontade de vencer trazia uma força do além. No meio daquela cautela toda, o Renan fez uma linda jogada e chutou forte no canto direito, mas o goleiro dos caras estava atento e agarrou a bola. No contra-ataque, chutaram do meio da quadra, a bola desviou e eles empataram o jogo. Nove a nove. Parecia mentira!

Os ânimos estavam à flor da pele e algumas jogadas violentas voltaram a ocorrer. Sofremos uma falta perto do nosso gol e como era uma falta que não levava perigo ao gol adversário, resolvemos torná-la perigosa. Falamos para o Dudu que ele seria o batedor. Todos nós sabíamos que, com seu famoso “três dedos”, ele tornaria aquela falta perigosíssima.

Dudu fez um montinho de areia, ajeitou a bola, tomou distancia e me disse: “Paga pau nos três dedos do Marcelinho.”

Todos nós olhávamos com grande expectativa. Ansiávamos pelo gol e eles atentavam para não deixar o nosso sonho se realizar.

E lá se foi a bola. Ela saiu como um foguete, fez uma curva espetacular e morreu no ângulo direito do gol adversário. A guerra estava vencida!

Corremos em direção ao nosso salvador e o abraçamos. Nossa alegria estava completa. Vencemos!

Colocamos nossos chinelos e pegamos o caminho de volta para nossas casas, mas antes, paramos no Bar do Toninho e tomamos uma Tubaína.

Meia hora depois cheguei em casa, cansado e faminto. Antes de entrar ao banho, meu pai me contou que o Senna havia sofrido um terrível acidente.

Almocei e, deitado no sofá, enquanto o jogo do Tricolor não começava, fiquei atento às notícias que anunciavam a morte do nosso ídolo da Formula 1.

O São Paulo perdeu. O Senna não aguentou. E a noite chegou, trazendo seu luto.

Que dia!

Sinto saudade desses momentos. Tudo era mais simples e, apesar das dificuldades que cada um passava, tínhamos nossos momentos de felicidade. Hoje em dia, quando nos reunimos, apesar de serem outros tempos, sempre recordamos com nostalgia dos tempos em que a única responsabilidade era vencer o time adversário.